Nem todos os livros contam uma história com princípio, meio e fim. Há livros que criam experiências incríveis, que são jogos entre o texto e a ilustração, fazendo da repetição, da expectativa e da surpresa os verdadeiros motores da narrativa. “Brilha Brilha Purpurina” (Upa Editora, 2024) é um desses livros, que deixa os leitores mais pequenos encantados pelo humor, a repetição, o suspense e a possibilidade de participarem activamente neste jogo.

A premissa é tão simples quanto irresistível: uma galinha, duas sardinhas, três tangerinas e uma cebola vivem tranquilamente numa piscina, até que uma voz misteriosa interrompe essa serenidade, repetindo insistentemente: “Brilha, brilha, Purpurina. Pareço uma galinha”. A partir desse instante instala-se um suspense que, em vez de procurar respostas imediatas, alimenta a curiosidade e convida o leitor a regressar continuamente às páginas anteriores, para descobrir aquilo que talvez lhe tenha escapado. A leitura transforma-se facilmente numa pequena encenação, em que o adulto lê em voz alta, modula a voz, prolonga os silêncios, exagera a surpresa e brinca com as repetições. O álbum parece ter sido concebido precisamente para esse espaço de encontro entre leitor e ouvinte, onde cada nova leitura não é uma repetição da anterior, antes uma recriação.
Nuppita Pittman trabalha o texto trabalha de forma económica, mas rigorosa. O humor nasce da acumulação, da repetição e, sobretudo, do ritmo. A autora compreende que a literatura para os mais pequenos é profundamente musical: as palavras não servem apenas para significar; servem para soar, para criar expectativa, para provocar o riso e convocar a participação de quem lê e escuta. O nonsense, longe de constituir um mero exercício de absurdo, revela-se um instrumento de grande inteligência. A reunião improvável de animais, frutas e legumes rompe qualquer lógica realista, libertando a imaginação das crianças da necessidade permanente de encontrar explicações.

As ilustrações são parte integrante da construção narrativa. O desenho caracteriza-se por uma linguagem gráfica depurada, de formas geométricas simples, contornos expressivos e uma utilização da cor simultaneamente vibrante e rigorosamente controlada. O traço e os detalhes convidam o leitor a entrar, mais uma vez, no jogo, assumindo o papel de detective para confirmar suspeitas, descobrir indícios ou perceber que determinados acontecimentos estavam anunciados muito antes de serem revelados. Texto e ilustrações constroem significados distintos e completam-se no acto da leitura, em plena harmonia. Uma experiência de leitura profundamente lúdica.











Sem Comentários