“A Minha Terceira Vida” (Alfaguara, 2026), de Daniela Krien, é um romance que se impõe pela sua crueza. A autora alemã explora o que acontece a uma mulher quando a vida, de repente, lhe tira o tapete. Linda, a protagonista, vive com o peso insuportável da perda da filha, acontecimento que serve de ponto de partida da narrativa, mas que figura igualmente como um “buraco negro” que a engole e consome, influenciando todas as suas decisões daí para a frente.
Dois anos depois da tragédia – a filha de 17 anos foi atropelada por um camião enquanto seguia de bicicleta -, Linda continua incapaz de regressar à sua vida bem-sucedida. Decide abandonar a carreira como curadora de arte, afastar-se do marido e refugiar-se numa quinta isolada nos arredores de Leipzig, onde os dias são preenchidos pelo cuidado da horta, pelos animais e uma rotina quase monástica.
Os acontecimentos do dia a dia são relatados à boleia de uma escrita minimalista, em que cada frase parece calibrada para não cair na tentação do melodrama, e com a autora a conseguir criar uma narrativa calma mas intensa. A linguagem, aliás, nunca tenta competir com a dimensão da tragédia, parecendo compreender que certas dores só podem – ou devem – ser narradas com contenção, recorrendo a uma espécie de “economia verbal” que acaba por tornar cada frase mais pesada e, também, mais definitiva. O que se lê é uma dor silenciosa, que se infiltra nos gestos mais banais e que mostra como tentar manter uma rotina já pode ser, por si só, uma forma de resistência.
O romance serve também como um “estudo” sobre reconstrução, ao mostrar que Linda não procura nada mais que apenas tentar continuar, sendo retratada e exposta não uma força heroica mas quotidiana. Ao longo das mais de 280 páginas, o sofrimento de Linda nunca é transformado em espectáculo, não havendo lugar para monólogos inflamados ou explosões melodramáticas. Existe, sim, e apenas, o desgaste rotineiro de quem acorda todos os dias sem conseguir encontrar uma razão suficientemente forte para continuar.
Ao mesmo tempo, enquanto Linda permanece incapaz de continuar a sua vida, Richard, o (ex-)marido, procura a sua reconstrução. Estará algum dos dois necessariamente certo ou errado? O romance recusa dar uma resposta, transparecendo a ideia de que o luto não é algo linear, mas um território profundamente individual. É também esta dicotomia que mostra como o amor, por si só, pode deixar de ser suficiente. Linda e Richard nunca cortam relações, continuam ligados pela mesma perda, mas esta produz (pelo menos durante muito tempo) linguagens incompatíveis, o que permite uma observação dolorosamente realista sobre o que a morte pode fazer mesmo às relações mais sólidas, como um veneno que se infiltra e corrói mesmo o corpo mais saudável.
A natureza acaba, também, por assumir um papel central na narrativa. A quinta onde Linda passa a viver deixa de ser um cenário secundário, transformando-se numa extensão do seu estado interior, com as plantas, os animais, as estações do ano e os pequenos gestos agrícolas a introduzirem um ritmo de vida e dando-lhe forma. Afinal, a vida continua porque as árvores continuam a crescer, porque os cães precisam de ser passeados, porque a terra exige trabalho e o trabalho ajuda a não pensar – mas também as pessoas acabarão por desempenhar o seu papel.
O luto, a maternidade, a fragilidade emocional, o amor ou o envelhecimento são temas retratados, numa obra que obriga o leitor a olhar para dentro e a questionar-se: e se fosse comigo? O próprio título parece encerrar e descodificar, desde logo, uma das principais ideias do romance, com a “terceira vida” a representar não um recomeço optimista mas, antes, a sugestão de que determinados acontecimentos são tão devastadores que conseguem dividir a existência de uma pessoa em etapas irreconciliáveis.











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