Os livros de mistério e suspense possibilitam que o leitor se transforme num verdadeiro investigador. Observar, desconfiar, relacionar acontecimentos, procurar contradições e tentar chegar à solução antes das personagens desvendarem todos os segredos, são tarefas que desafiam o leitor a exercitar o pensamento.
“Um Culpado Quase Perfeito” (Nuvem de Letras, 2026) e “Um Chá com Veneno” (Nuvem de Letras, 2026) são dois títulos da colecção Mistério Juvenil, série policial dedicada à Sociedade de Detetives Wells & Wong. A escritora Robin Stevens cria um ambiente que recupera alguns dos ingredientes clássicos da literatura policial: o crime aparentemente inexplicável, um grupo restrito de suspeitos, pistas que podem ou não ser relevantes, segredos escondidos e uma investigação conduzida através da observação e do raciocínio.
Em muitas situações, os leitores que apreciam este género irão recordar vários clássicos deste universo, nomeadamente as obras da Agatha Christie ou Sir Arthur Conan Doyle. O leitor necessitará de estar atento às singularidades, de distinguir o essencial do acessório, de questionar aquilo que lhe é apresentado, aceitando que a primeira explicação nem sempre é a mais correcta. Há qualquer coisa de profundamente estimulante neste tipo de leitura, com o livro a fazer-nos desconfiar até daquilo que julgávamos ter já compreendido.

No primeiro volume da colecção – “Um Culpado Quase Perfeito” -, somos apresentados a Daisy Wells e Hazel Wong, as duas alunas que fundaram a Sociedade de Detetives Wells & Wong. O problema é que, até então, os seus grandes casos não passavam de pequenos mistérios escolares, como o desaparecimento de uma gravata. Faltava-lhes aquilo que qualquer jovem detective verdadeiramente ambicioso deseja: um verdadeiro crime, um crime a sério. A sorte decide então colocar-se do lado das detectives – e também do leitor -, uma vez que o primeiro assassinato da Sociedade de Detetives Wells & Wong acaba por aparecer.
Hazel descobre a professora de Ciências, Miss Bell, morta no ginásio da escola. Assustada, procura ajuda, mas, quando regressa ao local acompanhada por Daisy, o corpo desapareceu. A partir desse momento, aquilo que parecia ser um simples acidente transforma-se num verdadeiro enigma. Se o corpo desapareceu, o que aconteceu realmente? Quem o retirou? Porquê? E, sobretudo, quem poderia ter cometido o crime?
Robin Stevens constrói o mistério através da sucessão de pistas, testemunhos, suspeitas e descobertas, permitindo ao leitor acompanhar a investigação quase lado a lado com as protagonistas. Ao leitor, não é simplesmente apresentado um crime já resolvido, ou uma investigação policial conduzida por adultos, pelo contrário: ver-se-à envolvido, convidado a participar no processo de descoberta.

Daisy e Hazel são diferentes e complementares. Daisy é mais confiante, determinada e teatral, enquanto Hazel se apresenta como uma observadora atenta, racional e cuidadosa. A relação entre ambas é construída através da amizade, mas também das diferenças de personalidade, e essa complementaridade torna a investigação mais interessante.
A acção decorre num colégio interno inglês dos anos (19)30, um espaço aparentemente protegido e organizado mas que, rapidamente, se transforma num lugar onde todos podem esconder alguma coisa. No início do livro é dado ao leitor um mapa do colégio, e a listagem das alunas, professores e funcionários permitirá acompanhar a acção em detalhe.

No segundo volume, “Um Chá com Veneno”, Daisy e Hazel encontram-se de férias em Fallingford, por ocasião da Páscoa e do aniversário de Daisy. O cenário é agora bastante diferente, mas mantém-se o ambiente típico do género policial: um espaço relativamente fechado, um conjunto limitado de personagens e um crime que obriga todos a serem vistos como potenciais suspeitos.
A mãe de Daisy prepara um elegante chá e reúne familiares e amigos, entre eles a peculiar tia Saskia e o carismático tio Felix. Porém, aquilo que deveria ser uma celebração transforma-se rapidamente num cenário de crime, quando um dos convidados é assassinado – aparentemente por envenenamento. Há, ainda, um ingrediente clássico que reforça o ambiente de suspense: uma violenta tempestade, que impede a polícia de chegar e dificulta a saída dos presentes. A mansão torna-se, assim, um espaço fechado, quase claustrofóbico, onde o assassino terá necessariamente de estar entre aqueles que ali se encontram.

Neste segundo livro, a autora joga com as aparências: serão reais ou ilusórias? A pessoa que parece mais inocente poderá esconder alguma coisa, aquela que desperta imediatamente a nossa desconfiança pode não ser culpada. A investigação exige, por isso, que Daisy e Hazel não se deixem conduzir apenas pelas primeiras impressões. Afinal, as aparências enganam ou nem por isso?
Lidos em conjunto, “Um Culpado Quase Perfeito” e “Um Chá com Veneno” permitem acompanhar não apenas dois casos policiais mas, também, o crescimento da Sociedade de Detetives Wells & Wong, bem como a relação entre as suas protagonistas. Um (duplo) convite ao prazer de resolver um enigma.











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