Começamos a conhecer Catalina de Erauso através da escrita de uma carta e, desde logo, surgem elementos que nos despertam a curiosidade: ela fala do seu passado como menina, mas menciona as suas andanças no masculino, como “grumete, vendedor e soldado”, até se tornar “um respeitado almocreve”. Para mais, a escrita não tarda a ser interrompida por duas vozes que se distinguem pela linguagem e que não identificamos imediatamente. Vozes questionadoras, prontas a desafiar as ideias-feitas de Catalina, tal como esta desafiou as expectativas do seu tempo. Trata-se de uma personagem histórica, nascida em 1592, em Espanha, que atravessou o Atlântico vestida de homem, sob o nome Antonio, e ficou conhecida como “a freira alferes”, pela participação na conquista das Américas – tendo, já no século XXI, servido de inspiração à argentina Gabriela Cabezón Cámara na escrita do multi-premiado “As Meninas do Laranjal” (Elsinore, 2026).
A carta apresenta-se como uma confissão, em cumprimento de uma promessa feita à Virgem do laranjal por Antonio, salvo da forca por uma canção, quando se encontrava preso num quartel que representa a brutalidade do colonialismo militar e religioso espanhol. Apesar de chegar a secretário do capitão, Antonio opta por fugir para a selva, levando consigo duas meninas indígenas e um conjunto de animais: uma cadelita ruiva, dois macacos, uma égua e o respectivo potro. Ao cuidar das meninas, malnutridas e fracas, apazigua a sua própria sede de paz após tantas andanças e lutas de vida ou morte, reinventando-se mais uma vez – agora como cuidador, num mundo selvagem e maravilhoso que tenta explicar por escrito.
Tendo por destinatária a tia, prioresa do convento do qual Catalina fugiu, Antonio entrega-se ao relato picaresco da sua vida “como se tudo o que fizera até ao momento tivesse como único fim contá-lo”. Mais do que uma obrigação, a escrita transforma-se num processo de interrogação da própria memória, porque esta “é traiçoeira e contrária à velocidade: não se oferece a quem foge, compraz-se em faltar a quem vive a mentir e a mudar de nome, de gentes, de nações”. Mas por mais que esta possa falhar, duas constantes permanecem: a ternura imensa pela tia, a par do desejo indómito de conhecer o mundo para além do convento, da imposição do cilício e de todos os limites que constrangiam o seu sexo.
Uma prosa encantatória cruza a narração do passado da protagonista com o seu presente, sendo a descrição da violência espanhola bem temperada com humor negro. Quem valorizar mais a componente histórica do romance, talvez não aprecie muito o facto de o confronto apoteótico final se situar num limbo, algures entre o sonho e o realismo mágico, mas é um final que se articula com a representação da selva como um lugar de metamorfoses, composto por múltiplas dimensões sensoriais; no fundo, algo tão imaterial quanto uma narração. ”Saberás que aprendi a contar histórias”, escreve Catalina/Antonio à tia. Gabriela Cabezón Cámara também, e é brilhante nisso.











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