“Zoocities – Animais Selvagens na Cidade” (Kalandraka, 2023) é um ensaio de Joëlle Zask, que nos inquieta e questiona. “Na primavera de 2020, os habitantes das cidades do mundo inteiro viram, de súbito, animais selvagens aparecerem às suas janelas. Casais de patos, veados e pavões, cangurus e macacos pareciam, de repente, ter invadido o asfalto”.
Nas cidades sempre viveram animais selvagens, como ratos, ratazanas, pombos, formigas. A estranheza deve-se ao reaparecimento de espécies que se julgavam praticamente extintas. É o caso dos rabirruivos-pretos, também conhecidos como «carvoeiros», que aparecem espontaneamente no centro de Londres, ou dos falcões-peregrinos, quase exterminados nas zonas rurais, que pairam actualmente ao nível da skyline das grandes cidades americanas: os arranha-céus proporcionam-lhes um habitat idóneo, rico em desníveis abruptos, em locais para fazer o ninho longe dos potenciais predadores e em fontes de alimentação sob a forma de pombos e aves migratórias.
Esta situação surpreende-nos, não pelo facto de os animais entrarem nas cidades, mas porque nós, seres humanos, contribuímos significativamente para transformar quase todos os lugares em que eles podiam viver. Será que já não têm para onde ir?
À medida que os habitats de muitos animais se tornam cada vez mais hostis, devido à poluição, à urbanização excessiva e às alterações climáticas, muitos animais selvagens procuram nas cidades alimento, abrigo e, por vezes, condições de sobrevivência que já não encontram nos seus territórios de origem. Assim, aquilo que parece uma «invasão» poderá ser, na verdade, uma consequência da nossa própria invasão dos territórios naturais.
Habituámo-nos a pensar a cidade como um espaço exclusivamente humano, cuidadosamente delimitado e organizado para responder às nossas necessidades. Construímos estradas, prédios, centros comerciais, parques industriais e bairros; ocupámos florestas, destruímos habitats, fragmentámos territórios, contaminámos rios e solos. E depois estranhamos quando os outros seres vivos aparecem nos espaços que, outrora, também eram seus. A cidade, porém, nunca foi exclusivamente nossa. Os animais selvagens mostram-nos isso de uma forma clara e evidente. Ao encontrarem alimento nos nossos resíduos, abrigo nos edifícios ou espaços verdes onde podem esconder-se, adaptam-se àquilo que lhes resta. Não estão necessariamente a escolher a cidade: muitas vezes, estão a escolher a possibilidade de continuar a existir, e esta é uma diferença fundamental.
Zoocities inquieta-nos. Questiona-nos sobre a nossa acção. Obriga-nos a pensar nos transtornos ecológicos do nosso tempo, não apenas como uma sucessão de problemas ambientais mas, igualmente, como uma profunda transformação das relações entre seres humanos, animais e território. A crise ecológica é, também, uma crise da nossa maneira de habitar o planeta e coexistir com outros animais. Afinal, quem tem direito a habitar a cidade? Em vez de expulsar os animais selvagens, talvez seja necessário encontrar formas de coexistência.
Joëlle Zask propõe precisamente este exercício: imaginar uma cidade que não seja pensada «contra» os animais, nem simplesmente «para» eles, mas «com» eles. Será possível? Esta pequena mudança de preposição contém uma enorme mudança de pensamento. Se assim for, necessitamos de uma outra cidade. Teríamos de nos reinventar. Seria necessário preservar corredores ecológicos, proteger espaços verdes, recuperar rios e zonas húmidas, reduzir a poluição, limitar a destruição dos habitats e criar condições para que diferentes espécies pudessem deslocar-se e viver, sem que a presença humana significasse automaticamente a sua expulsão. Será possível?
As questões permanecem. As questões éticas acumulam-se. Afinal, que direito temos de decidir quais as espécies que podem continuar a viver connosco e quais as que devem desaparecer? Os animais estão a aproximar-se porque nós nos aproximámos demasiado dos seus territórios? Este problema destina-se a salvar os animais ou será também uma forma de salvarmos a nossa própria capacidade de viver num mundo biologicamente diverso? Estaremos a fazer uma justa e adequada ocupação do planeta? Seremos capazes de construir cidades onde a vida selvagem não tenha de fugir de nós para poder sobreviver?
Zoocities é um livro para pensar e questionar, que obriga a reflectir sobre as transformações necessárias e urgentes na forma de agir e de pensar. Teremos ainda tempo?











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