A recente reedição de “O Labirinto da Saudade” (Gradiva, 2026 – reedição) e “O Fascismo Nunca Existiu” (Gradiva, 2026 – reedição), de Eduardo Lourenço, é um acontecimento intelectual que devolve ao espaço público dois livros cuja actualidade parece crescer à medida que o tempo passa.
Num momento em que a identidade nacional volta a ser objecto de disputa política, em que os populismos reescrevem a memória histórica e em que a Europa atravessa uma crise de sentido, regressar ao pensamento de Eduardo Lourenço é reencontrar uma das mais exigentes e originais consciências críticas da cultura portuguesa. Estas reedições são um convite ao pensamento, à reflexão. O pensamento de Eduardo Lourenço foi e será uma voz indispensável, para reflectirmos sobre o imaginário colectivo, os sonhos e os mitos, para decifrar as tensões que moldaram Portugal, enfim, sobre a verdadeira identidade nacional.
Eduardo Lourenço, filósofo de formação, ensaísta por vocação e humanista por convicção, tem uma vastíssima obra que oscila entre a a filosofia, a literatura, a história, a política, a antropologia cultural e a crítica das ideias, construindo um território singular onde pensar Portugal nunca significou celebrar Portugal, antes interrogá-lo. As perguntas são essenciais para compreendermos a realidade. Para além, do questionamento, pertinente e necessário, há uma dimensão provocadora que faz da sua obra um património vivo, dialogante e cogitativo – e não apenas uma obra académica de valor elevado.
Em “O Labirinto da Saudade”, publicado originalmente em 1978, Eduardo Lourenço realiza talvez a mais importante reflexão filosófica sobre a identidade portuguesa escrita no século XX. O livro parte de uma pergunta aparentemente simples: Quem somos nós? “Nós éramos grandes, dessa grandeza que os outros percebem de fora e por isso integra ou representa a mais vasta consciência da aventura humana, mas éramos grandes longe, fora de nós, no Oriente de sonho ou num Ocidente impensado ainda. (…) Como portugueses esperámos do milagre, no sentido mais realista da palavra, aquilo que, razoavelmente, não podia ser obtido por força humana”.
Ao longo do livro, Eduardo Lourenço desmonta aquilo a que chama de hiper-identidade portuguesa. Ao contrário de outros povos, que vivem crises de identidade por desconhecerem quem são, Portugal sofre, segundo o filósofo, do problema inverso: acredita saber demasiado bem quem é. Uma certeza que nasce de uma longa tradição de auto-representação heróica, construída a partir dos Descobrimentos, do império e da ideia de uma missão providencial da nação. O resultado é uma espécie de espelho deformador, onde Portugal contempla menos a sua realidade do que a imagem idealizada de si próprio. Eduardo Lourenço não escreve contra Portugal, pelo contrário, escreve contra as ilusões de Portugal acerca de si mesmo. A sua pretensão não é destruir a identidade nacional, antes libertá-la das ficções que impedem uma verdadeira auto-consciência. A saudade, longe de ser apenas um sentimento melancólico, transforma-se numa categoria filosófica, através da qual se compreende uma relação muito particular com o tempo, a memória e o destino.

Se “O Labirinto da Saudade” é uma arqueologia filosófica do imaginário português, “O Fascismo Nunca Existiu” constitui uma das mais penetrantes reflexões sobre a memória política do século XX português. O próprio título encerra uma provocação calculada, quase um paradoxo destinado a inquietar o leitor. Evidentemente, Eduardo Lourenço nunca negou a existência histórica do Estado Novo nem da ditadura salazarista. O que denuncia é outra realidade: a tendência da sociedade portuguesa para construir uma narrativa segundo a qual o fascismo seria uma espécie de acidente externo, uma anomalia sem raízes profundas na cultura nacional. O título deste livro é uma enorme provocação.
Eduardo Lourenço convida o leitor a olhar, a pensar sobre as condições culturais, sociais e psicológicas que permitiram essa longevidade. O fascismo necessita de formas de consentimento, de hábitos de obediência, de uma determinada concepção da autoridade e, até, de uma certa imagem que um país constrói de si próprio. Não se pretende julgar moralmente o passado, mas compreender os mecanismos da memória colectiva.
Depois do 25 de Abril, Portugal construiu uma narrativa relativamente pacificada da transição democrática, frequentemente marcada pela ideia de que a Revolução apagou definitivamente o passado autoritário. Contudo, para o filósofo, uma democracia sólida não se funda no esquecimento, mas numa memória crítica capaz de reconhecer as continuidades invisíveis entre passado e presente.
O que aproxima “O Labirinto da Saudade” e “O Fascismo Nunca Existiu” é uma mesma atitude intelectual. Eduardo Lourenço nunca escreveu para evidenciar certezas, mas para inquietar, provocar e induzir pensamento, para desconstruir convicções e fazer (re)nascer pensamento.
Estes são dois livros para ler e reler. Livros que oferecem “matéria” para pensar, e que exigem lentidão, concentração e disponibilidade para compreender a complexidade da História, das Geografias, das escolhas e decisões, das acções.











Sem Comentários