“O Verão dos Mergulhos” (Orfeu Negro, 2025) foi um álbum distinguido, pelo The New York Times, como um dos melhores livros ilustrados para crianças em 2025. Um livro de uma delicadeza invulgar e uma extraordinária exigência literária, estética e emocional, que oferece ao leitor uma das mais delicadas e profundas abordagens à doença mental na literatura para a infância dos últimos anos.
Muito mais do que um livro sobre a depressão, “O Verão dos Mergulhos” é sobre o amor resiste à doença, sobre a infância como lugar de esperança e sobre a extraordinária capacidade da literatura para criar palavras e imagens onde, antes, existia apenas silêncio. “Um dia, o homem que era meu pai desapareceu. Como se alguém o tivesse cortado da realidade. O sítio onde ele se sentava, à mesa do pequeno-almoço ficou vazio. Mas ele continuou a estar no álbum das fotografias. (…) Só passado muito tempo fico a saber para onde ele foi. Acho que fui a última pessoa a saber”.

A história é narrada pela voz de uma menina, que recorda o verão em que o pai “perdeu o sorriso”. A expressão, de uma simplicidade comovente, substitui qualquer diagnóstico clínico, tornando imediatamente acessível aquilo que tantas vezes permanece difícil de explicar: a depressão. O pai deixa de conseguir habitar o quotidiano. É internado num hospital psiquiátrico e a filha continua a visitá-lo, tentando compreender uma ausência que não resulta da falta de amor mas da incapacidade de existir como antes.
Sara Stridsberg nunca transforma a doença mental num problema a resolver, ou num recurso dramático destinado a provocar emoção fácil. Pelo contrário, restitui-lhe a complexidade humana. A depressão não surge como um castigo, uma fraqueza ou um desvio moral; é apresentada como uma doença que altera profundamente a relação da pessoa consigo própria e com aqueles que ama. Num tempo em que a saúde mental ocupa cada vez mais espaço no debate público, continua a existir uma dificuldade em falar dela com as crianças. Muitos adultos acreditam que o silêncio as protege, e este livro demonstra precisamente o contrário. As crianças percebem quando alguma coisa mudou, quando um pai deixa de sorrir, quando uma mãe já não consegue brincar, quando a tristeza se instala em casa. O que frequentemente lhes falta não é percepção, mas linguagem para compreender aquilo que vivem. A autora escreve com uma contenção admirável, recusando explicações excessivas ou discursos pedagógicos. O texto avança através de pequenas observações, imagens delicadas e frases que parecem suspensas entre a realidade e o sonho. Tudo é filtrado pelo olhar infantil, um olhar que aceita o mistério sem deixar de procurar respostas.

As ilustrações apresentam uma dimensão poética, com autênticas aguarelas que prendem o leitor. Fica-se em silêncio e, por momentos, apenas se observa. Pouco a pouco, as ilustrações dão visibilidade ao peso da ausência, à espera, à esperança, à solidão e, sobretudo, à persistência do afeto. A cor dilata-se pelas páginas. como se acompanhasse os estados emocionais das personagens. Há momentos de luminosidade quase estival, onde a natureza parece oferecer um refúgio contra a dor, e outros em que os espaços se tornam silenciosos, rarefeitos, quase líquidos. O hospital psiquiátrico nunca é representado como um lugar ameaçador, antes como um espaço suspenso entre o cuidado e a distância, onde coexistem fragilidade e possibilidade de recuperação.
Mergulhar significa entrar num território desconhecido, aceitar a perda momentânea do equilíbrio, confiar que será possível regressar à superfície. Há mergulhos dos quais regressamos diferentes e, por vezes, mais capazes de compreender os outros. É necessário falar de saúde mental como forma de combater o estigma, ensinando que pedir ajuda não é sinal de fraqueza mas de humanidade. “O Verão dos Mergulhos” é um livro extraordinariamente belo – belíssimo. Um livro para ler e dar a ler – e sobre o qual dialogar.











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