Cada livro de Victor D. O. Santos é uma surpresa muito agradável, um encantamento que se mantém com “Um Amigo de Presente” (Fábula, 2026). Um álbum magnifico, que nos traz temáticas difíceis e intrincadas como a imigração, a saudade, a adaptação e a amizade, apresentadas de forma elegante e afectuosa.
Ao abrir o livro encontramos, em folha dupla, um veículo de caixa aberta, que transporta muitas malas, alguns objectos pessoais e três pessoas: uma família constituída pelos pais e um filho. O fundo, sem mais detalhes, dá ao leitor a ideia de que a viagem será longa. Que viagem será? De onde vêm? Para onde vão? Quem são? Perguntas várias que dão início à narrativa. Na folha de rosto encontramos uma mala de viagem, aberta, com objectos que pertencem a uma criança. De quem será a mala?
Na página seguinte, ficamos a conhecer o protagonista – Adam, um menino que está prestes a fazer oito anos. Este aniversário, porém, não será igual aos outros. A mudança para um novo país deixou para trás amigos, memórias e lugares familiares, e o que Adam mais deseja como presente é, simplesmente, um amigo, aplacando as “saudades de ter alguém com quem conversar e brincar. De ter alguém que o ouça e que se importe com ele de verdade”.
A adaptação ao novo país e a uma nova cidade não estava a ser fácil, mas um encontro inesperado com um pequeno cão perdido, a quem decide chamar Buddy, funciona como um ponto de viragem na narrativa. Ao tentar ajudá-lo a regressar ao dono, Adam descobre que a amizade pode surgir de onde menos se espera.

Temas actuais e com alguma complexidade são incorporados e explorados, de forma simples mas não simplista, numa narrativa sem dramatizações, revelando o olhar de uma criança perante a experiência da deslocação e do recomeço. Um livro que nos fala de empatia e, principalmente, da importância dos pequenos gestos, aqueles que, silenciosamente, aproximam as pessoas.
As ilustrações de Anna Margrethe Kjærgaard assumem um papel fundamental na construção emocional do livro. Com traços expressivos e composições que privilegiam o espaço e a atmosfera, as imagens ampliam o texto, insinuam e oferecem-nos detalhes que permitem a reflexão e o diálogo. A paleta cromática e a expressividade das personagens contribuem para tornar visível o mundo interior do protagonista. Muitas vezes, é a própria ilustração que conduz o leitor através da mudança de estados de espírito: da melancolia à esperança, da espera à descoberta. As guardas, iniciais e finais, marcam o ritmo da narrativa. Se as iniciais nos apresentam plantas verdes, em vasos, simbolizando um compromisso a longo prazo e efemeridade, as finais apresentam-nos as mesmas plantas, em vasos, em flor, simbolizando a alegria, a amizade, a resistência e a capacidade de adaptação. Um livro para ler e dar a ler.











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