Como pode sobreviver um mãe após o suicídio de dois filhos? A resposta não está entre as páginas de “Tudo na Natureza Apenas Continua” (Alfaguara, 2026). Nesta ode de Yiyun Li aos seus filhos, é retratada a sua compreensão, a sua dor e a certeza de que depois destes actos tão radicais só existe o “agora, agora, agora”.
Ainda que retrate o seu pior pesadelo, não sentimos nunca a revolta da escritora Yiyun Li, antes uma tentativa de compreensão e de valorização de Vicent e de James – e das suas particularidades. A escrita é dolorosa, intensa e sublime. Ao folhear o livro entramos num território inquietante, onde observamos a respiração pesada com um aperto no peito. São-nos apresentados os factos de ambos os casos de forma crua, mas sempre pintados com citações de grandes obras literárias, que marcaram a vida e a personalidade de Vicent e James.
Pode dizer-se que é um livro de memórias, tragicamente pautado por duas escolhas. Pode também dizer-se que é um diário, escrito com uma sinceridade gritante e a delicadeza de uma eterna mãe, que age sempre tendo como prioridade os seus filhos.
Na primeira página, toda a história nos é explicada sem floreados. Depois da semente plantada e de sentirmos um murro no estômago, somos convidados a acompanhar o crescimento das plantas de Yiyun Li até ao seu final. Sentimos, no entanto, que só critica quem não ousa pensar no que pode levar jovens de 16 e 19 anos a escolherem não continuar a florir. Sentimos igualmente uma grande empatia com Vicent e James, com as suas personalidades tão distintas e marcantes, com a inteligência de ambos e a forma com que levaram a vida. Sentimos uma angústia pelos pais que ficam sem eles, a lidar com as suas ausências, com a permanência inalterada dos seus objectos e o silêncio da casa.
Podem os actos mais mundanos ser muitas vezes a salvação dos seres pensantes, que ousam questionar a vida e olhá-la com outros olhos. Porque colocar um fim à vida não deve jamais ser visto como um acto de cobardia, mas sim de coragem e desespero por um mundo que não muda e onde quem se mata não se encaixa, muitas vezes por inteligência ou sensibilidade a mais.
Não residem em “Tudo na Natureza Apenas Continua” grandes certezas e respostas, este não é um livro de choro ou de grandes remédios. É uma partilha sincera de uma mãe, que quer honrar a vida dos filhos, dar voz ao seu sofrimento e fragilidades, sem máscaras ou vitimização. É uma celebração da vida e do amor de mãe, leitura que arranca lágrimas aos mais sensíveis, mas que é cortante, objectiva e extremamente bela.











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