É com alegria que constatamos que ainda há livros de História com a capacidade de nos surpreender, de nos encantar e de nos fazer sentir pequeninos perante a vastidão do que desconhecemos. “Rainhas de Jerusalém” (Penguin, 2026), da historiadora Katherine Pangonis, é uma dessas felizes descobertas. A autora transporta-nos até ao século XII, para a região do Médio Oriente onde a Primeira Cruzada forjou quatro Estados: os Condados de Edessa e Tripoli, o Principado de Antioquia e o Reino de Jerusalém. E aí, partindo de uma historiografia que tende a colocar as figuras masculinas em primeiro plano, recupera a memória das mulheres que exerceram poder nesses territórios conturbados, devolvendo-as ao centro da História através de uma narrativa que combina o conhecimento académico com uma considerável capacidade de cativar o leitor.
Depois de explicar como a instabilidade local criou uma conjuntura que impulsionou mulheres de nascimento nobre para posições que lhes permitiam governar, apesar da desigualdade sexual integrada na estrutura da sociedade, Pangonis concentra-se numa dinastia de governantes que principiou com uma princesa de um antigo reino arménio, chamada Morfia, cujas quatro filhas desafiaram a imagem tradicional da aristocrata limitada ao papel de transmissora de terras e geradora de herdeiros masculinos. Embora tenha sido a primeira mulher coroada Rainha de Jerusalém, Morfia era apenas consorte e não rainha reinante. Já a sua filha mais velha, Melisanda, assumiu importância política desde tenra idade e recebeu do rei seu pai, em testamento, direitos hereditários ao trono, em pé de igualdade com o marido e o filho – algo invulgar tanto na Europa como no Médio Oriente, e que advém da sua personalidade “forte, sagaz e temerária”. Por sua vez, a segunda filha, Alice, enfrentou mais obstáculos na busca do protagonismo que desejava: durante seis anos, no decurso dos quais desencadeou três rebeliões, tentou tomar o poder no “opulento principado” de Antioquia, investindo num jogo perigoso que acabou mal para o seu lado. Constança de Antioquia, sua filha, surgirá posteriormente como uma personagem mais subtil e politicamente eficaz, capaz de aprender com os erros da geração anterior e de reivindicar uma maior autonomia nas escolhas da sua própria vida.
Entre intrigas palacianas, guerras, massacres e alianças improváveis, sucedem-se nomes cujos trajectos se fundem com a política global. Nomes de mulheres – da relativamente desconhecida e “extremamente fracturante” Sibila, que foi a primeira mulher a ser coroada sem um marido ao lado, à mais célebre Leonor de Aquitânia, que se tornou a primeira monarca a participar numa cruzada – mas também nomes de diversos homens que se destacaram na época e que não são de modo algum discriminados. Aliás, a relevância dada às figuras femininas não pretende apresentá-las como heroínas irrepreensíveis, mas sim como seres humanos complexos e falíveis, sendo particularmente interessante a análise comparativa dos diferentes caminhos que as conduziram (ou não) ao poder.
O resultado é um retrato vibrante e acessível de uma sociedade marcada por crises quase constantes e relações de poder periclitantes. Mais do que uma simples sucessão de biografias, este livro de estreia premiado com o Somerset Maugham Prize oferece uma reflexão sobre a natureza do poder, sobre os limites impostos pelo género e sobre as formas como algumas mulheres conseguiram ultrapassá-los.











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