“Como tinta que se derrama, o vírus alastra”. São estas as primeiras palavras de “Lobos” (Dom Quixote, 2025), romance assinado por Tânia Ganho que sucede a “Apneia”, palavra que curiosamente surge por duas vezes neste “Lobos”. Um livro que aponta em várias direcções, mas cuja força motriz se vai revelando em momentos vários, seja na dedicatória – “A todas as pessoas cujas vidas foram publicamente devassadas” -, na citação arrancada ao livro “O Pintor de Batalhas” – “Há lugares de onde nunca se regressa” – ou, ainda, numa frase lida mais à frente: “Sempre periclitante, o equilíbrio dos sobreviventes”.
A história tem como personagens centrais Fedra, uma antropóloga forense que, depois de ter vivido duas décadas em trânsito por alguns dos piores lugares da terra, regressa a casa. A fealdade do mundo, porém, continua a acompanhá-la, agora no seu trabalho no Instituto de Medicina Legal, que a obriga a mergulhar na dark web numa experiência solitária e esgotante; Stefan, que fez de “Walden” o seu livro de cabeceira, construindo com as suas mãos uma cabana na floresta, deixando para trás uma vida como repórter de guerra para tentar uma reparação junto da natureza; Leonor, uma adolescente de 14 anos, vítima de um crime sexual que a levará a isolar-se do mundo; e, também, Amélia, mãe de Fedra e avó de Leonor, às voltas com o esquecimento total, mas que em algum recanto do seu cérebro guarda uma memória que poderá servir de ponto de viragem às vidas que compõem sua descendência.
São muitos os temas que este romance atravessa – eutanásia, comportamentos abusivos, dark web, os novos caminhos da pornografia, envelhecimento, pena de morte, vida conjugal, dinâmicas familiares, Alzheimer, as armadilhas do corpo, a banalidade do mal -, mas talvez o eixo central seja o de colocar, lado a lado – ou frente a frente -, a era analógica e a sociedade digital. Sobre isto, Stefan lança para o ar uma questão pertinente: o que fazer quando os ecrãs nos confrontam com o vazio e a tecnologia nos falha?
Há uma abordagem à vida como encenação, mas também à erosão das fronteiras que delimitavam, de forma algo estanque, a vida pública da vida privada. Privacidade com que as novas gerações – mas também as não tão novas – parecem lidar de forma distinta, normalizando de alguma forma a exposição e fazendo com que a intimidade pareça perder, de alguma forma, o seu espaço.
Stefan, uma das personagens centrais deste romance, é um sexagenário que criou para si uma bolha, olhando de lado para as gerações mais novas: “É a geração dos passadiços, baloiços e tronos onde se fotografam a «contemplar» a paisagem por um minuto, a geração das apps para «meditar». Sente-se velho quando sai do seu eremitério, mas não lhe parece que seja uma questão de envelhecimento e sim de efectiva mudança”. Um olhar de alto para uma geração que, muito provavelmente, daqui a 50 anos estará a repetir essas mesmas palavras à geração que lhe irá suceder.
É, aliás, às novas gerações – aqui representadas por Leonor – que fica aberta a porta para uma possível transformação do mundo, uma vez que tanto Stefan como Fedra parecem ter chegado ao limite das suas forças, preferindo o egoísmo da sua bolha à sujidade do mundo que querem deixar para trás. Um retrato sobre o impacto profundo da violência e do trauma, numa história que decorre no contexto da pandemia que nos trouxe a Covid.











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