“Perder o Juízo” (Elsinore, 2026), de Ariana Harwicz, faz inteira justiça ao título. É uma narrativa intensa, vertiginosa e profundamente introspectiva, que nos instala no interior dos pensamentos de uma mulher consumida pela necessidade desesperada de manter os filhos junto de si. Há insanidade e desespero nos seus gestos, mas também um amor feroz e uma resistência obstinada à perda.
Lisa recusa aceitar que lhe seja retirada a guarda dos dois filhos gémeos. É-lhe impossível conceber um futuro em que a maternidade passe a ser regulada por horários, decisões judiciais e pela vontade de terceiros. A disputa parental deixa de ser apenas um conflito legal, para se transformar numa guerra pela própria identidade: perder os filhos significa, para ela, perder também o lugar que ocupa no mundo. É precisamente nesse ponto que o romance se torna inquietante, porque obriga o leitor a habitar uma mente onde o amor, a posse, o medo e a obsessão se confundem continuamente.
Enquanto acompanhamos os actos extremos que empreende para recuperar as crianças, regressamos também ao relacionamento amoroso do qual elas nasceram: uma relação tumultuosa, precária e marcada pela incomunicabilidade. A separação não dissolve o conflito; antes o amplifica, prolongando-o através dos filhos, que se tornam o centro de uma disputa onde se cruzam ressentimentos, desconfiança, poder e vulnerabilidade. Harwicz evita julgamentos fáceis. Não procura decidir quem tem razão, mas mostrar como um conflito pela guarda pode ser vivido como uma experiência de aniquilação por quem sente que está a perder, não apenas os filhos mas a própria possibilidade de continuar a existir como mãe.
A certa altura, Lisa quase se “vende” para preservar essa ligação aos filhos. Cede, promete, imagina futuros que sabe serem inviáveis, procurando recuperar um lugar que lhe escapa desde o momento em que rompeu com o pai das crianças e com os sogros, figuras que sempre a observaram com suspeita e que pareciam antecipar, desde o início, a sua queda.
Logo nas primeiras páginas, Ariana Harwicz captura o leitor de forma quase violenta, concedendo-lhe uma intimidade improvável com a protagonista. A escrita avança num fluxo contínuo, sem grandes pausas para respirar, e essa intensidade cria um efeito de imersão difícil de interromper. Queremos continuar a ler, porque sentimos que estamos a assistir ao desmoronamento de uma consciência em tempo real.
O romance suscita também uma inquietação mais ampla: será possível reconhecer antecipadamente aquilo em que alguém se pode transformar? O que distingue uma pessoa comum de alguém capaz de cometer actos extremos? Antes de serem assassinos, sequestradores ou agressores, muitos pareceram perfeitamente banais, integrados na vida quotidiana. Harwicz não oferece respostas, mas confronta-nos com a fragilidade das fronteiras entre a normalidade e a loucura, entre o amor e a violência, entre a protecção e a destruição.
Num só fôlego, entramos na mente de Lisa e tomamos contacto com a sua obsessão, a sua confusão e o impulso desesperado de recuperar uma vida que já não lhe pertence por inteiro. Os filhos foram-lhe retirados e ela recusa aceitar essa perda. Ariana Harwicz faz da disputa parental o palco de uma devastação emocional, revelando como um processo de separação e de disputa pela guarda pode ser vivido como uma experiência extrema, onde a identidade, o amor e a sanidade parecem desintegrar-se em simultâneo. É uma leitura exigente, desconfortável e emocionalmente avassaladora.
Harwicz não nos convida a decidir quem tem razão, mas a experimentar a vertigem emocional desta mãe cuja identidade parece ruir quando perde os filhos, o que torna o livro ainda mais perturbador. Não é por acaso que se trata de uma das vozes mais singulares e disruptivas da literatura argentina contemporânea, com uma obra já amplamente traduzida e premiada.











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