No México, o Día de Los Muertos faz do luto uma festa, onde os já desaparecidos são prendados com música, a sua comida favorita e altares coloridos, num dia que é como uma porta aberta para o reencontro de almas. Na Mongólia e no Tibete pratica-se o enterro do céu onde, após a morte, o corpo do falecido é levado para o alto de uma montanha, oferecido como repasto a abutres e aves de rapina. No Gana, os funerais são celebrações comunitárias que duram vários dias, onde os mortos são enterrados em caixões fantasia, esculpidos em formatos que representam a profissão ou uma paixão do falecido. Já na Europa, dominada por uma forte influência cristã, predominam os velórios sóbrios e os sepultamentos em cemitérios tradicionais – ou, mais recentemente, a cremação -, onde muitas vezes quem parte nem sequer tem direito a umas palavras para si esculpidas, substituídas pelo discurso de um padre que, não raras vezes, nunca pôs a vista em cima do falecido. “Agora e na hora da nossa morte” (Companhia das Letras, 2025 – reedição), um livro-ensaio escrito por Susana Moreira Marques, está longe de ser um livro sobre a morte ou os seus rituais, mas é esta ideia, muitas vezes não pronunciada, que o atravessa de uma ponta à outra, entre a inquietação da memória, a implacável mortalidade e a importância do cuidar.
O livro nasceu, como nos conta a autora no prólogo, em 2011, quando foi conhecer um projecto de cuidados de fim de vida domiciliários em Trás-os-Montes, despertando em si a vontade de “perceber como é que se podia ajudar as pessoas a morrerem com dignidade, conforto e sem terem que ser tiradas das suas casas e dos seus lugares”. Uma jornada pessoal que, após vários meses e alguns regressos, resultou num livro em três actos, que “parte dessa viagem, dessa experiência, e das muitas perguntas que fui fazendo durante esse tempo”.
O primeiro acto, intitulado “Notas de viagem sobre a morte”, é um ensaio sobre estas aldeias-ilha, que em vez de mar são rodeadas por terra. Fala-se da ideia do desconhecido, da desertificação e do abandono do interior, de religião, sepulturas e casas, tudo acompanhado por algumas entradas de dicionários que discorrem sobre palavras ou expressões como “paliativo”, “agonia” ou “conspiração do silêncio”. No final, chega-se à conclusão de que “a morte tem pouco de literário”.
“Retratos”, o segundo acto, mergulha na vida de Paula, João e Maria, e Elisa e Sara, onde à voz da ficcionista se junta, também, a dos retratados em discurso directo. Vidas individuais que, não raras vezes, alcançam a universalidade, seja falando do fim do mundo como um momento de auto-reparação ou lembrando-nos que “os outros somos nós”, ideia central do livro que elege o acto de cuidar como aquilo que mais nos aproxima do ideal de Humanidade.
A terminar temos “Quando regressares da viagem que ninguém saudável quer fazer, vais”, um poema de uma página que assinala o fim de uma demanda. Uma lista que resulta do contacto directo com a morte e que, ainda assim, está repleta de luminosidade, fazendo-nos recordar as pessoas que perdemos, os anónimos que morrem sós, as coisas pirosas que devemos dizer às pessoas próximas, impelindo-nos a olhar o futuro como passível de ser remendado ou, em jeito de despedida, lembrando-nos que “mais do que pensar que a cada morte o mundo acaba, pensar que a cada nascimento recomeça o mundo”.
Com muito lirismo e uma habilidade rara de juntar fragmentos, recolhidos em aldeias condenadas ao esquecimento e ao abandono, Susana Moreira Marques acabou por escrever um livro que confere um sentido a cada um dos fins. Mais do que falar da morte, “Agora e na hora da nossa morte” convida-nos a celebrar a vida.











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