Num meio literário que se leva, quase sempre, demasiado a sério, “O Desfufador: Contágio” (Tinta da China, 2025), primeiro volume de uma duologia assinada por Valério Romão, é uma lufada de ar fresco que virou ciclone, sendo muito provavelmente o melhor romance nacional que chegou às livrarias em 2025.
Neste fogo-de-artifício humorístico, que eleva o palavrão a património da grande literatura, Valério Romão aponta a tudo o que é direcção, seja satirizando a masculinidade, dando colo às teorias de conspiração, brincando com a turistificação ou erguendo o dedo central ao meio académico. E, tudo isto, através de uma galeria de personagens que poderiam estar colados com cuspe numa caderneta de cromos.
O livro centra-se numa aparente “epidemia de lesbianismo”, que conhece o seu primeiro foco em Lisboa, e que irá exigir uma resolução de teor comportamental com muito de sedução, liderada por um trio masculino: Alejandro, o discreto protagonista, é filho de mãe doente e pai incógnito, apesar de existirem rumores de que este poderá ser o inimitável Julito Iglesias. Teve o azar de ser criado por tias misândricas, às quais conseguiu fugir já em idade respeitável e, não conseguindo cumprir o sonho de se tornar faroleiro, partiu num cruzeiro que o acabará por deixar em Lisboa. Será ele o improvável candidato a herói, cabendo-lhe operar o tão desejado “desfufamento”, capaz de travar uma estranha pandemia; Alex, um anão extremamente bem dotado – ou apetrechado -, que teve o seu crescimento interrompido quando levou um valente pontapé no rabo, mantendo uma relação peculiar com um golfinho; e Hélder, um sociólogo muito dado a teorias da conspiração e acérrimo defensor de uma “recolhonização” à escala global.
Para além deste trio, há figuras não assim tão secundárias como as tias de Alejandro, mulheres que odeiam os homens e que tentaram – sem sucesso? – fazer do sobrinho uma criatura imprestável; a misteriosa Catarina, que vai saltando de continente em continente em busca de um homem enigmático – pelo menos na sua imaginação; ou o espaço NALGA, que tem como lema “aqui não és enrabado nos preços”. Preparem-se para uma epidemia de lágrimas felizes.











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