“Nuvens sobre as nossas cabeças, areia sob os nossos pés” (Planeta Tangerina, 2026), de Henrique Case Moreira, é um pequeno-grande livro que convida o leitor a habitar no seio da narrativa. Um livro que se deverá ler devagar, permitindo que o olhar e a imaginação se encontrem no espaço de cada página – um espaço simples e poético.
Sem recorrer a grandes acontecimentos ou reviravoltas, Henrique Case Moreira transforma a experiência da deslocação e da descoberta numa reflexão, sobre a forma como habitamos os lugares e nos relacionamos com o tempo. O percurso físico torna-se, pouco a pouco, um percurso interior. O leitor é levado a observar pequenos detalhes, a valorizar os silêncios e a reconhecer que viajar nem sempre significa chegar a um destino; muitas vezes, significa aprender a olhar.

O autor confia no leitor. Dá-lhe tempo para observar. Dá-lhe liberdade para se apropriar, para reflectir e contemplar. “(…) Guarda-sóis e cadeiras fecham-se. Vão-se todos embora, ninguém quer ficar. A chuva é forte, mas aos poucos vai parando. Só nós ficamos, com as nossas capas de chuva. A praia fica deserta, mas há muita coisa para ver”.
É no diálogo discreto, quase silencioso, entre texto e ilustração, que o livro revela toda a sua riqueza. As ilustrações são parte integrante da narrativa, acrescentando camadas de significado ao texto. As guardas, iniciais e finais, abrem as portas ao cenário da narrativa. As nuvens, a areia, os percursos e as paisagens tornam-se elementos narrativos, que acompanham o estado emocional das personagens e do próprio leitor. Em muitos momentos, a ilustração prolonga o que foi apenas insinuado pelas parcas e doces palavras; noutros, induz sentidos e, mais uma vez, convida o leitor a regressar às páginas para descobrir detalhes que tinham passado despercebidos.

Num tempo em que se privilegia a velocidade e a acção, “Nuvens sobre as nossas cabeças, areia sob os nossos pés” contraria a modernidade e recorda-nos o valor de parar, de suspender o tempo veloz, respirar fundo, olhar demoradamente para o mundo e reconhecer que as grandes viagens começam, muitas vezes, com um simples gesto de atenção. Mais um pequeno-grande livro de Henrique Coser Moreira, um magnificente observador. Maravilhoso.











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