Durante demasiado tempo, a inteligência foi reduzida a um número. O quociente de inteligência (QI) tornou-se, durante grande parte do século XX, a medida privilegiada para avaliar capacidades cognitivas, estabelecendo uma hierarquia entre aqueles que seriam “mais” ou “menos” inteligentes. Contudo, a investigação em Psicologia e em Educação veio questionar esta visão redutora, mostrando que o talento humano se manifesta de formas muito diversas. “Mil e uma Maneiras de Ser Inteligente” (Fábula, 2026) é um livro que parte desta premissa, apresentando-se como um livro inspirador que celebra todas as formas de se ser inteligente, encorajando crianças, jovens e adultos a reconhecerem as suas capacidades e a valorizarem o que as torna verdadeiramente únicas.
Com um texto ritmado e acessível, Davina Bell convida os leitores a reconhecer que cada pessoa aprende, sente, cria e resolve problemas de maneira diferente. Não existe um único caminho para compreender o mundo, ou uma única forma de revelar inteligência. “Podes ser inteligente a recortar e a colar chapéus pontiagudos e asas de voar. (…) Desenhar dinossauros com garras afiadas e saber sobre eles muitas coisas engraçadas. (…) Ser inteligente é estar junto, sorrir e dar a mão e saber o que vestir em qualquer ocasião. (…) É agrupar triângulos, círculos e quadrados verdes, azuis e encarnados. (…) É explorar a natureza, e saber fazer uma surpresa”.

A narrativa constrói-se, página após página, a partir de exemplos que mostram crianças com diferentes interesses, capacidades e sensibilidades. Há quem encontre respostas nas palavras, quem pense através da música, quem compreenda melhor os outros, quem observe atentamente a natureza, quem imagine mundos inteiros ou descubra soluções construindo com as próprias mãos. O texto nunca estabelece comparações; celebra, antes, a pluralidade das formas de ser.
É impossível não relacionar esta proposta com a teoria das inteligências múltiplas, desenvolvida pelo psicólogo Howard Gardner na década de 1980. Gardner contestou a ideia de que a inteligência pudesse ser medida apenas através de testes padronizados, defendendo que os seres humanos possuem diferentes tipos de inteligência — linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista, às quais acrescentou posteriormente outras possibilidades em discussão. A grande questão é: de que forma é esta pessoa inteligente? É esta ideia que atravessa o livro de Davina Bell, convidando os leitores a libertarem-se da ideia de que ser inteligente significa apenas obter boas classificações, resolver problemas matemáticos rapidamente ou possuir uma memória excepcional. A inteligência manifesta-se também na criatividade, na empatia, na capacidade de cooperar, na curiosidade, na perseverança, na imaginação ou na sensibilidade para compreender o outro e o mundo natural.

As ilustrações de Allison Colpoys apresentam uma paleta suave e uma composição arejada, revelando uma atenção às expressões, aos gestos e às relações entre as personagens. Em cada página, em cada ilustração, o leitor sente acolhimento, serenidade e ausência de estereótipos, inclusão e diversidade.
“Mil e uma Maneiras” de Ser Inteligente revela-se um livro pertinente e actual. Afinal, todos podemos revelar inteligência de formas diferentes. Não nos podemos esquecer que o pensamento humano é vasto, criativo e diverso. O importante é valorizar a singularidade de cada pessoa.











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