Olivier Tallec tem demonstrado que o álbum ilustrado pode ser, simultaneamente, divertido, poético e filosoficamente exigente. Os seus livros são marcados pelo humor, a inteligência, a delicadeza visual e a capacidade de abordar temas complexos através de narrativas compreensíveis às crianças, recusando simplificações e tratando os leitores mais novos como interlocutores capazes de pensar, interpretar e questionar. As suas personagens, muitas vezes animais humanizados, espelham inquietações profundamente humanas: a amizade, o medo, a solidão, a liberdade, o desejo de pertença, a identidade e a procura de sentido. “Já Não Quero Ser Esquilo!” (Nuvem de Letras, 2025) é mais um livro extraordinário. Perguntador. Filosófico. Dialogante.
“Já não quero ser esquilo. Nunca mais! Acho que ninguém sonhou ser esquilo. Ninguém quer passar o tempo sozinho, a saltar de ramo em ramo à procura de pinhas. Estou mesmo a falar a sério, já não quero ser esquilo! Se me tivessem perguntado, de certeza que teria escolhido ser outra coisa.”

Um pequeno esquilo toma uma decisão inesperada: já não quer ser esquilo. O que poderia parecer apenas uma brincadeira, transforma-se rapidamente numa reflexão filosófica sobre quem somos e a possibilidade – ou impossibilidade – de sermos outra coisa. Afinal, será que a identidade é algo de fixo? Será que basta desejar ser diferente para o conseguirmos? Ou será precisamente na aceitação daquilo que nos torna únicos que reside a nossa maior riqueza? No centro da narrativa encontra-se uma questão essencial: a identidade. Crescer implica descobrir quem somos, reconhecer aquilo que nos distingue e compreender que cada pessoa possui características próprias que a tornam irrepetível. Num mundo onde a comparação constante e o desejo de corresponder a modelos surgem cada vez mais cedo, este livro recorda-nos que a singularidade é uma riqueza, porque cada ser é único. É na singularidade que o mundo se torna infinitamente mais rico.
O texto é breve, preciso e ritmado, deixando espaço para que o leitor participe activamente na construção do sentido. O humor nasce do contraste entre a seriedade com que o esquilo encara o seu dilema existencial e a simplicidade das situações que vai vivendo. As ilustrações são, como é habitual na obra de Olivier Tallec, absolutamente determinantes para a força narrativa do álbum. O autor domina como poucos a expressão das personagens. Com pequenos gestos, olhares, posturas e silêncios, consegue transmitir emoções complexas – como a dúvida, a frustração, o orgulho, o espanto ou a ternura. A expressividade do esquilo torna-se o verdadeiro motor emocional da história, enquanto os cenários naturais, depurados e luminosos, oferecem o espaço necessário para que as personagens respirem, para que o humor aconteça naturalmente.

Há uma grande harmonia entre texto e imagem, um diálogo permanente. Muitas vezes, são precisamente as ilustrações que acrescentam informação, criam ironia ou revelam aquilo que o texto apenas sugere.
Um livro que nos recorda que, em algum momento da vida, já desejámos ser diferentes, mas que talvez o maior desafio não seja transformar-nos noutra pessoa, e sim aprendermos a reconhecer a beleza, a dignidade e a força daquilo que somos.











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