Todas as grandes invenções têm contribuindo para transformar a vida da Humanidade, contribuindo significativamente para sermos quem somos. A escrita, um dos grandes inventos da Humanidade, permitiu mudar a nossa forma de ser e de estar, e talvez seja a invenção mais fascinante de todas.
Durante milhares de anos, os seres humanos dependeram essencialmente da memória e da transmissão oral para conservar conhecimentos, histórias e regras. A palavra dita desaparece no momento em que é pronunciada. Poderá ser repetida, transmitida, transformada, mas acabará por ser esquecida.
A palavra escrita trouxe a mudança, oferecendo à Humanidade uma espécie de memória exterior ao próprio ser humano. Com ela, é possível deixar uma marca. A grande inovação da escrita consentiu que a palavra permanecesse. As palavras aprenderam a ficar de forma (e)terna – tudo mudou.

Ao escrever, há uma cultura que se manifesta, que “representa a alma de um povo”, uma imaginação que se amplia, mundos infinitos que nascem. Transformamos ideias, damos poder às palavras, às memórias. Possibilitamos que um pensamento atravesse gerações. Que as leis sejam registadas, que uma descoberta possa ser transmitida a alguém que ainda nem tenha nascido.
A palavra escrita expande o império do conhecimento. Ninguém poderá ficar excluído. As escolas abrem portas. Louis Braille espanta o mundo ao escrever em relevo, viabilizando a inclusão. Escrevemos para comunicar, “escrevo o meu nome, escrevo um SMS, uma carta, um poema, um romance, um diário. Escrevo um contrato, uma oração, uma lei. Escrevo um dicionário”.
“História da Escrita” (Nuvem de Letras, 2026), mais um título da coleção Lilliput, é um livro extraordinário, que percorre a história desta extraordinária invenção humana e nos mostra diferentes formas de registar aquilo que pensamos, dizemos e fazemos. Da pedra ao papiro, dos sinais gravados aos sistemas de escrita que continuam a transformar-se, o livro apresenta a escrita como uma conquista que nunca deixou de evoluir, uma invenção que possibilitou descobrir uma tecnologia capaz de conservar o pensamento, de lutar contra o esquecimento, transformando o efémero em memória.

Saber escrever é ter poder. É ter acesso a múltiplos mundos. Ensinar uma pessoa a escrever é dar-lhe autonomia, liberdade. É permitir-lhe que compreenda documentos, que expresse ideias, defenda direitos ou, simplesmente, possa protestar. Ser capaz de escrever aquilo que se pensa, guardar aquilo que se sente e participar na construção da memória colectiva é um acto de verdadeira cidadania. Escrever é, também, um acto de beleza – pensemos na arte da caligrafia japonesa.
“História da Escrita” é um livro particularmente interessante, porque transforma um tema que poderia parecer distante dos jovens ou demasiado académico numa viagem acessível por uma das maiores conquistas da humanidade. Löic Le Gall não se limita a transmitir informação; convida os jovens leitores a compreender aquilo que hoje nos parece natural: ler e escrever.
Num livro sobre escrita, seria fácil cair numa apresentação excessivamente documental, reproduzindo apenas sinais, alfabetos, objectos e datas. No entanto, as ilustrações de Karine Maincent têm um papel muito relevante, uma vez que criam relações, tornando visível aquilo que o texto afirma e despertando a curiosidade, antes mesmo de a criança começar a ler. Um livro magnifico para ler e dar a ler.











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