É, da extensa bibliografia de Ian McEwan, um dos seus livros mais curtos, cruéis e perturbadores, um aproximar do escritor inglês ao género do terror sempre com as relações humanas na mira, e que parte da ideia de que, como diria Cesare Pavese, “viajar é uma brutalidade”.
“Estranha Sedução” (Gradiva, 2024 – reedição), o segundo romance de McEwan, tem como núcleo central Mary e Collin, um casal que, desde logo, respira crispação, incapazes de explorar a cidade para onde viajaram com prazer, algo que fariam de forma natural se estivessem cada um por si. O que os une neste momento, mais do que o frenesim da paixão, é uma “amizade serena”, para além de rituais partilhados e, sobretudo, da “adaptação segura, precisa, dos membros e dos corpos, confortável, como um molde de regresso à forma”.
Nesta cidade cujo nome nunca nos é revelado, apesar de uma referência a venezianas, aos canais, às ruas estreitas e à boa comida, conhecem Robert, um homem mais velho com um forte magnetismo, que os apresenta também à sua mulher Caroline. Porém, aquilo que parecia conduzir a uma nova amizade – ou, quanto muito, a uma amizade de férias – começa a ganhar um profundo sentido de inquietação: Robert tem um discurso misógino, não sendo de descartar a prática diária de violência doméstica; quanto a Caroline, vive constantemente assustada e, no único momento em que descobre alguma privacidade, descreve ao casal o seu lar doce lar: “isto aqui é uma prisão”.
Numa tensão crescente, alimentada a tisanas que de pouco servem para refrear a velocidade da pulsação, McEwan faz-nos mergulhar na obsessão erótica, nos limites do corpo, nas fronteiras do prazer, numa história cruel habitada pelo mal e a crueldade humana.











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