Comecemos pelo mais importante. “Duas Raparigas Nuas” (Asa, 2026), escrito e desenhado por Luz a partir de uma apurada investigação, é um álbum de banda desenhada excepcional, que nos conta um século de história a partir de um quadro. Quadro que é, quase sempre, o lugar a partir do qual o próprio leitor observa a própria história, transformando-se ele próprio na tela.
A história tem início em 1919, numa floresta nos arredores de Berlim, onde o pintor Otto Mueller ensaia, sob as agruras de uma pneumonia mal curada e num saco de batatas com têmpora – uma mistura de pigmentos e cola para madeira -, o quadro que viria a ser “Duas Raparigas Nuas”.
A modelo é Maschka, para quem Otto, “o boémio de salão transformado em cigano de academia”, é alheio ao mundo que se move vertiginosamente lá fora: “A Alemanha mudou, o mundo mudou, mas tu continuas o mesmo. E eu não consigo perceber se isso é uma coisa boa ou má”.

Aproveitando uma proposta irrecusável, Otto muda-se para a cidade de Breslávia (Polónia), onde irá conhecer aquela que julga poder ser a sua nova musa, nunca se libertando porém de Maschka, que se reencontra com Otto com este já casado e prestes a ser pai.
Após a morte de Otto, o quadro, já finalizado, é comprado por um coleccionador chamado Litmann que, apertado pela crise financeira e a perseguição aos judeus, acaba por suicidar-se, sendo os seus quadros – incluindo o de Otto – entregues a uma leiloeira. Mais tarde, acabam por ser apreendidos pelos nazis, que os categorizam como “arte degenerada”, num movimento de arianização dos museus que levou muitas obras de arte à fogueira – ou a serem exibidas como um sinal de doença ou de má arte.
Luz acompanha as viagens e atribulações deste quadro durante um século, até ao momento em que este se vê restituído à família de Otto, um acto de justiça e de sentimento que é, de alguma forma, a única reparação possível face ao inominável.

Ao nível dos desenhos, o trabalho de Luz é primoroso desde a primeira página, feita apenas de diálogos impressos em balões de texto em fundo branco, a que se vão juntando, a conta-gotas, pinceladas de tinta. Porém, ao invés de ver o quadro, o leitor é o próprio quadro, assistindo ao momento de criação de Otto Mueller. No atelier de Breslávia, como que sentindo a ausência de Maschka, o fundo muda para negro e as ilustrações ganham um peso mais denso, com a chuva a deslizar em vidros que recusam serem tocados pelo resguardo das cortinas.
Para o final, além da revelação do quadro, uma cronologia e diversas biografias, está guardado um posfácio assinado por Rita Kersting, directora-adjunta do museu Ludwig de Colónia, lugar onde poderá ser visto o quadro de Otto Mueller, sobrevivente de um período negro da história humana. Um álbum incrível, desenhado contra todas as formas de censura política e cultural.











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