A premissa de partida perpassa o absurdo e, simultaneamente, o poético. O texto de Inese Zandere move-se entre a delicadeza e o humor subtil, construindo uma narrativa breve, quase minimalista, mas cheia de pequenas surpresas. Há, neste livro, um tom surreal, um acontecimento estranho — tornar-se invisível — que abre um espaço de observação do mundo e da própria personagem.
“Duas Almas” (Orfeu Negro, 2025) apresenta ao leitor uma menina chamada Alma, que “mergulhou no verão como se mergulha num lago verde”. No final da escola e com as férias de verão à porta, Alma iria passar uns dias com a “velhinha tia-avó na Turfa, onde o ar era puro e o mar não ficava longe. Ainda mais perto do que o mar estava o cemitério. A Alma conseguia vê-lo da janela do seu quarto, que para lá da cerca do jardim da Turfa, depois de um carreiro, atrás do muro feito em pedra w coberto de musgo, tal como o telhado da casa”. Um dia, Alma ouviu as lamúrias durante um funeral e escutou um “A Alma morreu” – e, nesse mesmo instante, tornou-se invisível.
A partir daqui, o livro abre espaço para uma narrativa simultaneamente divertida e filosófica, onde o quotidiano de umas férias no campo — o gato, o jardim, o verão lento — se cruza com uma pergunta essencial: o que acontece quando deixamos de existir aos olhos dos outros?
Neste pequeno e fabuloso livro, a autora oferece ao leitor questões para dialogar e reflectir, sobre temas como identidade, imaginação, existência ou percepções; sobre o modo como vemos os outros e existimos quando deixamos de ser vistos; sobre o lugar que ocupamos no mundo e o poder da imaginação.

As ilustrações de Anete Bajāre-Babčuka são essenciais na construção do sentido do livro. A ilustradora, formada em escultura e design gráfico, procura frequentemente cruzar o quotidiano com elementos inesperados ou ligeiramente estranhos. As cores suaves e as composições amplas evocam o tempo suspenso do Verão no campo, enquanto pequenos detalhes visuais sugerem aquilo que o texto apenas insinua.
Há uma dimensão quase cinematográfica na forma como as páginas são construídas: espaços abertos que deixam respirar a narrativa; personagens discretamente deslocadas da realidade; momentos silenciosos que convidam à contemplação. Quando Alma se torna invisível, as imagens ganham ainda mais importância. O leitor passa a procurar a personagem nas páginas, numa espécie de jogo visual que reforça o tema central do livro.
Vencedor do prestigiado Prémio Golden Apple da Bienal de Bratislava, “Duas Almas” é um livro para ler, dar a ler e reler, recomendado para as primeiras leituras autónomas.











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