Um Dungeon Crawler é, para os não iniciados no mundo dos videojogos, um jogo de sobrevivência em labirinto, com objectivos simples: acabar níveis, matar monstros, ficar com o que eles deixam para trás. Carl, o protagonista deste livro, dá por si enfiado numa versão real de um Dungeon Crawler, quando extra-terrestres aniquilam quase toda a raça humana para transformar o planeta Terra numa gigantesca masmorra jogável — obrigando os sobreviventes a combater todo o tipo de monstros em directo, para gáudio de uma plateia cósmica de triliões de espectadores.
“Carl, o Herói das Masmorras” (Kathartika, 2026) é uma das obras mais celebradas do Lit RPG, um sub-género de ficção científica e fantasia em que as personagens vivem num mundo explicitamente governado por mecânicas de jogo — com níveis, poções, barras de energia — e medem a sua progressão à medida que a história se desenrola. No caso deste livro, a mecânica cobra o seu preço: pontos, inventários e métricas acumulam-se até se tornarem ruído, e o leitor aprende depressa a não lhes prestar grande atenção.
Matt Dinniman constrói um universo deliciosamente louco, onde coabitam orcs, ratos bípedes, lesmas gigantes e uma gata aristocrata, convencida de que o apocalipse existe para a fazer brilhar. A narrativa avança como um verdadeiro festival do absurdo, e funciona também como sátira mordaz à cultura do espectáculo em que vivemos.
Os espectadores intergalácticos comportam-se como qualquer público de um reality show: votam, comentam, patrocinam os favoritos e abandonam os fracos ao seu destino. Dinniman não precisa de sublinhar a analogia — ela está lá, incrustada na mecânica do seu mundo.
O ponto mais forte do livro é o humor. Dinniman dispara em três frentes: o absurdismo puro, a sátira pop carregada de referências culturais e um humor negro que não hesita em mergulhar no gore e na violência extrema, embrulhados num registo cartoon.
Nenhuma personagem encarna melhor o espírito do livro do que a Princess Donut — a gata de estimação de Carl que, após engolir um biscoito mágico, ganha consciência plena, a capacidade de falar e a convicção inabalável de que é a figura mais carismática do apocalipse. Donut não é apenas uma personagem cómica, é uma hilariante força da natureza, com opiniões muito próprias sobre etiqueta, fama e a lamentável incapacidade do mundo em estar à sua altura.
Para os apreciadores de humor negro, ficção científica e imaginação em roda livre, “Carl, o Herói das Masmorras” é de leitura obrigatória. Dinniman construiu um livro tão imprevisível e caótico como o universo que inventou — nunca se sabe o que vem a seguir, mas sabemos que será algo delirante.











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