“Ei! O que pensas que estás a fazer?
Sim, estou a falar contigo.
Eu disse que poderias ler este livro? Não, é óbvio que não disse. Então, tira esse narizinho metediço dos meus assuntos e para de ler JÁ.
Hum, porque é que viraste a página?? Não te disse para desapareceres?!
Bem, se vais ficar por aí, então é melhor falar-te um pouco de mim. (…) Chamo-me Nora. Vivo na casa de campo que fica em cima da colina. (…) E agora que já sabes um pouco de mim (…), sugiro que nunca mais falemos um com o outro. Portanto, fecha este livro já, e vai cada um à sua vida.”
Se leste estas primeiras linhas de “A Avó Nora e o Mapa do Caos” (Nuvem de Letras, 2025) e não fechaste o livro, deves ser um leitor que gosta de um bom desafio, aventuras e humor – e de Nora, uma bisavó excêntrica, rabugenta, destemida e completamente fora do comum.

A narrativa começa quando Nora fica a tomar conta dos bisnetos: Artur, mais conhecido pelo Ratinho; e Aurora, a quem a Nora chama Despenteada “porque tem sempre o cabelo num oito”. À primeira vista, parece apenas mais uma aventura familiar, mas rapidamente percebemos que Nora esconde um passado inverosímil, um passado que nenhum bisneto imagina. Nora foi uma famosa caçadora de monstros! Quem diria?! Quando uma antiga inimiga regressa para recuperar o misterioso Mapa do Caos, tem início uma viagem repleta de criaturas estranhas, ilhas perigosas, piratas e situações completamente caóticas.
Esta é uma narrativa de personagens, ou melhor, que combina uma narrativa forte na construção de personagens com acção e aventura. O enredo é dinâmico: há perseguições, monstros, viagens e mistérios constantes, mas tudo isso funciona porque as personagens têm uma identidade forte e carismática. Nora é hilariante porque quebra completamente a imagem tradicional da avó calma e tranquila. É impulsiva, excêntrica, corajosa, imprevisível, irreverente e com uma personalidade gigante. A própria evolução de Artur é importante. Se, inicialmente, surge ao leitor como curioso e um pouco assustado, acaba por ser surpreendido com o que descobre sobre a família. Vê a bisavó como alguém estranho e difícil mas, pouco a pouco, descobre que é uma mulher corajosa, frágil e que a sua vida é completamente imprevista. Há uma valorização das relações familiares, dos diálogos e das emoções, aspectos típicos de uma narrativa centrada nas personagens. Aurora, ainda pequena, acrescenta à narrativa momentos de humor e ternura. O contraste entre o universo monstruoso e a problemática quotidiana de tomar conta de crianças oferecem ao leitor momentos de leitura deliciosamente cómicas.

As ilustrações de Nici Gregory aparecem de forma breve mas eficaz, ajudando a reforçar o tom divertido e excêntrico da história. Os desenhos têm expressividade, humor e captam muito bem o lado caricatural das personagens e das criaturas fantásticas. São pequenos apontamentos visuais, que tornam a leitura mais dinâmica, dando ênfase ao ritmo narrativo, algo essencial para conquistar leitores – que não vão querer parar de ler.
“A Avó Nora e o Mapa do Caos” é uma celebração da imaginação, de aventuras improváveis e de famílias imperfeitas. Um livro divertido, perfeito para leitores que gostam de monstros, humor e personagens excêntricas e inesquecíveis.











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