“Do Outro Lado do Tempo” (Nuvem de Letras, 2025) partilha, com o leitor, uma reflexão critica e plena de humor sobre o tempo, a identidade, a liberdade e a construção de quem somos. O livro parte da premissa de uma “comunicação imaginada entre dois tempos: o presente, escrito pela Ana de 2025, e o passado, baseado em diários escritos pela Ana dos anos 1990”. Ana Markl propõe-se conversar com o nosso próprio futuro, numa poderosa metáfora sobre crescimento e auto-conhecimento.

A premissa possui um irresistível sabor de ficção científica, mas apressadamente o leitor compreende que o tempo é apenas o cenário de uma história íntima. Nesta narrativa, Ana Markl dá ênfase às emoções, pelas dúvidas e escolhas que definem uma vida e que nos constroem como pessoas. O futuro deixa de ser um lugar distante para se transformar num interlocutor, alguém que conhece as consequências das nossas escolhas e decisões e que, por isso mesmo, nos confronta com uma inquietação inevitável: até que ponto queremos realmente saber aquilo que ainda não vivemos? A narrativa desenvolve-se com grande fluidez, alternando momentos de humor, surpresa e introspecção. A escrita aproxima-se do jovem leitor através de diálogos, de questões que suscitam curiosidade e da nossa relação com o tempo. Se o futuro pudesse responder às nossas perguntas e inquietações, deixariam as nossas escolhas de ser verdadeiramente livres? Conhecer antecipadamente aquilo que nos espera seria uma vantagem ou um peso? Haverá determinismo nas nossas escolhas? Ou seremos plenamente livres?
A hipótese de dialogar com o futuro torna-se uma metáfora daquilo que todos fazemos diariamente: imaginar quem seremos daqui a alguns anos. Na adolescência, essa pergunta ganha uma intensidade particular. Quem vou ser? Conseguirei realizar os meus sonhos? Reconhecer-me-ei na pessoa em que me tornarei? O livro transforma estas inquietações universais numa aventura narrativa, que combina imaginação e reflexão. O livro nunca oferece respostas fechadas. Pelo contrário, convida o leitor a habitar a incerteza, sugerindo que o futuro é espaço permanentemente moldado pelas escolhas e decisões do presente.

A componente visual aproxima-se da linguagem da banda desenhada, recorrendo a enquadramentos cinematográficos, sequências visuais, variações de plano e a uma dinâmica que acelera ou desacelera a leitura conforme as necessidades do enredo. O ritmo visual é forte e eficaz, na comunicação das emoções, silêncios ou mudanças temporais que dificilmente seriam plasmados através da palavra.
A composição gráfica parece desafiar a linearidade temporal, reforçando a ideia central do livro: o tempo não é apenas uma sucessão de momentos, mas também uma dimensão que pode ser imaginada, questionada e reinventada. “Do Outro Lado do Tempo” oferece ao leitor o belíssimo exercício de desafiar o tempo.











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