“Bem-Vindos ao Sul” (Fábula, 2023) é um livro que nos propõe uma reflexão pertinente sobre as desigualdades sociais, o direito ao lazer e a forma como as circunstâncias económicas condicionam a infância, a juventude.
“No primeiro dia de aulas na nova turma, fiz uma estupidez. Tinha de dizer como me chamava, onde morava e o que gostava de fazer nos tempos livres. Por isso, disse que me chamava Ina e ignorei a questão sobre os meus tempos livres, porque não sabia de todo o que havia de dizer. Quando disse que me tinha mudado para o número 30 de Trosteveien e alguém da turma, acho que foi a Regine, perguntou se isso não era a Cooperativa Bela Vista, eu disse que sim. Porque era inocente. Isso foi antes de eu perceber que nunca devia dizer que moro na Cooperativa Bela Vista, caso mo perguntem. Muitos colegas de turma deram risadinhas e doi então que a ouvi. Pela primeira vez. A alcunha que dão ao sítio onde moro. Cooperativa Franca Vista.”
O bairro. A condição social. As férias e a forma como estas são vividas estão no centro da narrativa. Não poderemos ignorar que, na sociedade contemporânea, as férias são frequentemente associadas ao descanso, às viagens, à descoberta de novos sítios e mundos, à criação de memórias felizes. Contudo, “Bem-vindos ao Sul” questiona esta ideia aparentemente universal, mostrando que nem todas as famílias dispõem dos recursos necessários para proporcionar essas experiências aos seus filhos. A narrativa evidencia, com grande sensibilidade, que a impossibilidade de ir de férias não constitui apenas uma limitação material; pode traduzir-se igualmente num sentimento de exclusão social. Quando, no regresso às aulas, as conversas giram em torno das viagens realizadas ou das experiências vividas, quem nada tem para contar pode sentir-se excluído do grupo.
A desigualdade manifesta-se também nas oportunidades de brincar, descansar e de descobrir o mundo. Ina, uma jovem de 12 anos, sente a pressão para ser aceite no grupo, mas o facto de viver num bairro social poderá condicioná-la. Neste sentido, a obra assume uma importante dimensão social, ao lembrar que o direito ao lazer, consagrado na Convenção sobre os Direitos da Criança, continua longe de ser uma realidade para todas as crianças. Sem recorrer a moralismos ou a discursos explicitamente pedagógicos, a história de Ina convida o leitor a reflectir sobre uma realidade frequentemente invisível.
“É aborrecido ter viajado para o Sul sem sair da Cooperativa Franca Vista. Porque é aí que estou. Não posso sair, para não correr o risco de me cruzar com alguém que conheça. É por isso que tenho de ficar aqui. Como uma prisioneira.”
O espaço do Sul adquire um significado simbólico. Se, inicialmente, significa a permanência em casa, a ausência de uma vida agitada, e, por vezes, o isolamento, pouco a pouco será um lugar de encontro, onde diferentes percursos de vida se cruzam e as relações humanas se sobrepõem às diferenças económicas. É neste espaço que as personagens aprendem a conhecer-se, a respeitar-se e a descobrir que a amizade não depende da condição social de cada um. O Sul transforma-se, assim, num território de inclusão, onde a convivência permite ultrapassar preconceitos e construir um verdadeiro sentido de comunidade.
É através das personagens que a narrativa ganha profundidade, e que o leitor compreende que o quotidiano poderá não ser equitativo para todos os jovens. Há condicionantes sociais e económicas, há sonhos, receios, limitações e a ingenuidade própria da idade. As personagens são riquíssimas na sua intensidade, sem falsos estereótipos, plasmando a pluralidade existente no quotidiano, as diferentes “bolhas” sociais, onde o diálogo, a amizade e a partilha assumem um papel determinante.
“Bem-vindos ao Sul” é um livro extraordinário. Um livro para ler e dar a ler, ideal para esclarecer a inutilidade dos preconceitos.











Sem Comentários