É já o terceiro título protagonizado por Pepe Carvalho a chegar às livrarias nacionais nos últimos meses, numa série de reedições ou inéditos promovida pela editora Quetzal. Depois de “Mares do Sul” (ler crítica) e “Assassinato no Comité Central” (ler crítica), é agora a vez de “A Solidão do Manager” (Quetzal, 2025). Um livro que, apesar da publicação original em 1977, nunca havia sido lançado em Portugal.
Como sempre existe um crime, ainda que este nunca seja o elemento fundamental dos romances de Manuel Vázquez Montalbán. O morto dá pelo nome de Antonio Jaumá, que “não era muito alto, não era pedagogo, mas sim um alto executivo de uma empresa internacional, não era cristão e o seu progressismo era mais vital que político”, e que foi atirado à “vegetação rasteira” depois de lhe ter sido administrado um tiro no coração. Jaumá cheirava a “perfume íntimo de mulher” e estava “quase totalmente vestido”, faltando-lhe as cuecas que compensava tendo, num dos bolsos das calças, umas “cuequinhas de mulher”.
Perante este cenário, a opinião da polícia é de que se trata de “um ajuste de contas de algum chulo de putas”, mas uma investigação paralela é encomendada a Pepe Carvalho pela mulher de Jaumá, que confessa a Carvalho a estima imensa que o marido nutria por ele. Carvalho havia conhecido o “manager” numa outra vida, num único encontro fortuito em Las Vegas que acabou por se prolongar noite fora, mas as impressões que nele deixou – “um manager de uma multinacional que se comportava como o dono de uma oficina de bairro” – fazem-no avançar com a investigação, mesmo depois de chegarem as primeiras ameaças, num caso que tanto a polícia como um executivo rico e poderoso pretendem encerrar rapidamente.
Fazendo companhia a Pepe Carvalho estão Biscuter, “pequeníssimo, com cabeça de filho de fórceps, com uma calvície cómica com os parietais cheios de loira vegetação hirsuta, pómulos corados num rosto claro, grossos lábios cor-de-rosa caídos, olhos de peixe cozido, (…) orgulhoso da sua genica, da sua vitalidade quotidianamente posta ao serviço de Carvalho”, e também Charo, a prostituta-amante de Carvalho que, vai-se a ver, é a sua companheira para a vida.
Um livro onde, mais uma vez, Montalbán nos faz caminhar por entre os escombros emocionais do pós-franquismo, jogando um pingue-pongue desencantado entre o comunismo e o aburguesamento, caminhando sobre o abismo do corporativismo, ao lado de um homem para quem a ética ainda é um referencial da experiência humana.











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