“A Barata que Acordou Transformada numa Menina” (APCC, 2023) é um livro que dialoga, de forma explícita, com A Metamorfose de Franz Kafka, invertendo o pressuposto da célebre novela Kafkiana para construir uma reflexão original sobre identidade, humanidade, exclusão e pertença.
A referência a Kafka nunca se transforma num exercício de erudição ou numa simples homenagem. Pelo contrário, funciona como um ponto de partida para pensar problemas profundamente contemporâneos: quem define a normalidade? O que nos torna verdadeiramente humanos? Como olhamos para quem é diferente? Até que ponto a nossa identidade depende do olhar dos outros?
Ao inverter A Metamorfose kafkiana, Ana Margarida de Carvalho não pretende suavizar a sua visão trágica do mundo, segundo a escrita de Kafka. Faz algo mais interessante: demonstra que a literatura continua a ser um espaço de conversa entre obras separadas por um século, permitindo que uma narrativa para a infância dialogue com um dos grandes textos fundadores da modernidade literária, não simplificando a interpretação do mundo mas tornando-o mais complexo. Talvez a verdadeira metamorfose não consista em mudar de corpo, mas em aprender a olhar o outro e a nós próprios.
O título anuncia, desde logo, o seu gesto literário: uma inversão assumida da premissa de A Metamorfose de Franz Kafka. Se, na obra do escritor checo, Gregor Samsa desperta transformado num inseto monstruoso, condenado à incompreensão e ao isolamento pela própria família, aqui é uma barata que acorda transformada numa menina. A inversão, contudo, não é apenas um jogo de espelhos ou um exercício de intertextualidade destinado aos adultos. É uma operação literária profundamente significativa, que desloca o centro da narrativa para uma questão essencial.
“(…) «Mamã, gritou, «não tenhas medo de mim, sou eu, a tua filha, Georgina Samanta, e, durante a noite, transformei-me nesta gigantesca e horrível menina!» A mãe acalmou-se, para não a entristecer ainda mais. «Querida filha, tens de te recompor. Há coisas que nos acontecem que não conseguimos explicar. Nós, baratas, somos muito resistentes, habitamos este planeta há milhões de anos, e continuaremos a habitá-lo muito depois de os humanos desaparecerem.”
O texto de Ana Margarida de Carvalho não elimina a estranheza da metamorfose, apenas desloca a perspectiva. A protagonista, Gregorina Samanta, continua a olhar o mundo como quem lhe é exterior, observando comportamentos, regras e convenções que os restantes personagens consideram naturais. É precisamente esse olhar estrangeiro que permite desmontar muitos dos automatismos da condição humana. Afinal, o que significa ser humano? A escrita de Ana Margarida de Carvalho é de uma grande delicadeza filosófica, com cada episódio a convidar o leitor a interrogar conceitos aparentemente estáveis: normalidade, identidade, empatia, civilização.
“Georgina Samanta já tinha ouvido falar de metamorfose, algo que acontecia frequentemente aos insectos; conhecia até lagartas que se tinham transformado em borboletas, eram demasiado frágeis e vaidosas. Achava mais graça às moscas, sempre atrevidas, a cuspir alimentos, todas despachadas, e a sugar tudo adoráveis trombinhas…”
Se o texto dialoga com Kafka através da inversão narrativa, as ilustrações de Anna Bouza da Costa estabelecem um diálogo igualmente sofisticado com a própria ideia de metamorfose. O seu trabalho não procura ilustrar literalmente o que o texto descreve; antes prolonga-o, acrescentando novas camadas de leitura. As ilustrações transparecem a tensão entre o orgânico e o humano, entre aquilo que reconhecemos e aquilo que permanece inquietantemente estranho. As linhas, texturas e enquadramentos contribuem para uma atmosfera simultaneamente delicada e perturbadora, preservando a ambiguidade que caracteriza toda a narrativa. Um livro para ler e dar a ler aos mais jovens.











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