Pedro Paulos, o homem por detrás do podcast Brandos Costumes, sobe ao Palco Aguardela no dia 7 de Agosto, quando a noite já for longa. Antes disso, visitou-nos para tirar a sua RádioGrafia Bons Sons.

Pedro Paulos apresenta Brandos Costumes, uma viagem pelo lado mais desconhecido da música portuguesa: o que desconhece de artistas famosos, de artistas que nunca chegaram ao sucesso e, sobretudo, das boas músicas refundidas que podiam ter sido grandes sucessos. Brandos Costumes, podcast que fundou e que mais tarde partilhou com Angelina Velosa e Marta Rocha, ganhou vários prémios e tornou-se num programa do Canal Q. Mais do que arquivo histórico, procura música contagiante. A missão é só uma: dançar ao som do desconhecido que nos soa tão familiar.
Aquela banda ou artista que te fez comprar uma revista só porque trazia um poster que ficava a matar numa das paredes do teu quarto.
A minha primeira banda fetiche foi sem dúvida Marilyn Manson. Na altura, a Internet ainda não era tão disseminada, qualquer coisa que envolvesse a banda era importante para mim. Fosse uma sweatshirt, uma cassete da tourné ou um poster.
A banda ou músico que te fez comprar e usar uma T-Shirt.
Foi o mesmo! Imaginem-me no 6º ano, no pico da minha timidez, a cruzar cabisbaixo a escola com uma sweat negra que chocava muitos dos meus colegas.
O primeiro disco em que usaste o dinheiro que tanto trabalho deu a enfiar no porquinho de barro.
É uma excelente pergunta que eu nem sei bem responder. Quando comprei os primeiros discos, foi quando comecei a ir a concertos de Hardcore quando tinha 15 anos. Comprei muitos, mas um dos primeiros foi o de X-Acto, um disco azul com uma paisagem aérea de uma praia.
Os discos que os teus pais, irmãos e primos mais te fizeram ouvir.
O meu pai tinha uma colecção invejável e foi lá que descobri o disco da Kriskopke que me fez começar o Brandos Costumes. Ele era apaixonado por air drumming, Pink Floyd e baladas românticas. O meu primo acabou por me fazer descobrir muita música mais ruidosa, e mantemos essa relação de partilha musical.
Se pudesses viajar no tempo para ver um artista ou banda já desaparecidos, até onde te levaria a viagem?
Há muitas alturas da música que gostava de viajar, como a explosão da música electrónica na Europa, período que foi apelidado de Second Summer of Love, mas acho que provavelmente iria à era efervescente do New York Noise, em que Punk, Hardcore, Hip Hop, Latino, Disco – e muito mais – estavam todos a interagir e a criar juntos.
O melhor disco para curar um desgosto amoroso.
Sei porque já me aconteceu: Luís Severo, aquele que é homónimo. É perfeito para enfrentar as coisas de frente e tentar avançar. E chorar ao som da “Lamento” a cantar “Amor que foi já não volta”.
E para ajudar a ultrapassar uma ressaca danada?
Há um artista chamado CFCF que tem um disco chamado “Liquid Colours”. É um drum’n’bass bem orelhudo, e eu nem sou ultra fã do género. Cura mesmo, experimentem.
Dois discos que voltam recorrentemente a entrar na tua playlist.
Diria que são estes: Pulp – “Different Class” e Clã – “Kazoo”.
A canção alheia que gostarias de ter escrito.
Eu sou muito de obsessões por canções, então a maior dificuldade é mesmo escolher uma apenas. Mas há uma canção que eu tenho um fascínio particular, que é a música “Circle” de Edie Brickell & The New Bohemians. A versão do J. Mascis dos Dinosaur Jr. é muito tocante também. Acho que é uma música que me relaciono muito, de alguém que tem muita sede por fazer coisas novas e que sente que acaba por deixar para trás (ou para a frente, tanto faz). Toca-me sempre esta canção.
A melhor canção ou disco de 2026 (até agora)?
É sempre dificil para mim fazer tops, ouço musica regularmente. Tenho o meu programa, Saturno na Futura, mas vou um bocado off-script mas tenho ouvido o disco de Poison Ruin – “Hymns From The Hills”. Acho que é o disco que ouvi mais este ano. Entre o post-punk, o punk e algumas coisas de metal mas com um bom gosto maravilhoso.
O filme de que gostaste tanto que já o reviste inúmeras vezes (e até já conseguiste decorar umas falas).
“Cannibal, o Musical”! É o primeiro filme dos criadores do South Park quando ainda estavam na universidade. É um misto entre uma viagem em busca de ouro que corre mal de forma desolante e… um musical.
O filme que te fez chorar tanto que tiveste de esperar uns minutos para sair da sala de cinema (para que ninguém te visse de olhos espremidos)?
Não sei se isso já me aconteceu… Eu choro facilmente, mas acho que não houve um assim que parecesse que estava num concerto do Tim Bernardes. Mas há um clássico que me faz chorar, o “Cinema Paraíso”. O conselho final é duro.
Aquele livro de que gostaste tanto que, se te tivesse sido emprestado, pensarias pelo menos duas vezes antes de devolvê-lo?
“Seara de Vento” do Manuel da Fonseca. É um dos meus livros preferidos. Fala sobre as durezas da ditadura em Portugal, sobre a fome, sobre a inevitabilidade do contrabando e a angústia de sobreviver numa zona desértica de Portugal. Às vezes, parece que Portugal é um país sem memória.
Se pudesses visitar um livro durante um dia, qual escolherias?
“LX80”! Adorava viajar a Lisboa dos anos 80, devia ser meio perigosa mas fascinante encontrar toda uma sociedade a descobrir-se e ao mundo.
A cena mais romântica que já fizeste por alguém.
Houve uma altura em que havia uma pessoa que eu queria muito que a coisa rolasse, sonhava andar com ela. Empenhei o meu anel de ruby para a levar ao concerto que havia no Rivoli. Era só com ela que eu queria estar nesse dia, juntos de mão dava a ouvir aquela música sempre a subir. Mas não acabou bem, ela nem ficou meia hora, não fez esforço para gostar e foi embora.
Aquela comida de que gostas tão pouco que, se te for servida num jantar de amigos, tens de inventar uma dor de barriga?
Uma vez uma amiga queria fazer alho francês com cogumelos e deu-me um chilique. Acho que não é sobre o prato, é mesmo sobre as intenções duvidosas. Concordo em inventar, mas com coisas que façam sentido e melhorem o paladar.
O prato que comerias sempre se não pudesses morder outra coisa.
Ovos mexidos! Acho que não ia enjoar. Adoro ovos no geral.
Se tivesses Cem Soldos – o que, na moeda corrente, equivaleria a uma valente pipa de massa – para gastar numa extravagância, o que seria?
Eu faria uma boa visita ao mundo apenas focada em ouvir música e comer. Idealmente, para sempre.
O concerto no Bons Sons vai ser…
Uma desculpa para descobrir o outro lado da música portuguesa. Músicas para dançar que nos fazem fazer shazam, mas que muitas vezes não dá para encontrar.











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