Um disco sobre “fantasmas, o tempo e a vida no bairro”, com personagens que “habitam o passado, o presente e o futuro: figuras míticas do apocalipse espreitam entre os arbustos, mamutes vagam pelas ruas — se olharem com bastante atenção”.

É desta forma que nos é apresentado – na página bandcamp da artista – “Mammoth”, o segundo longa-duração de Flora Hibberd, com data de lançamento estimada para dia 16 deste mês – com a produção a cargo de Ben Lanz (The National). Um disco que serviu de mote ao concerto de Flora Hibberd no Sotão da Casa Capitão, na boa companhia do guitarrista Victor Claass, que tem trabalhado de perto com a cantora e compositora britânica desde 2020, dividido entre a produção, a composição e os arranjos dos seus discos.

Seria difícil um concerto com um maior grau de intimidade, com cerca de 30 pessoas a presenciarem, de (muito) perto, a um concerto superlativo, cujo mérito deverá ser partilhado com a dupla que esteve aos comandos da mesa de mistura – o som esteve impecável, assim como o discreto jogo de luzes.

“Obrigado por estarem aqui”, lança Flora Hibberd logo a abrir, apresentando-se sempre com uma forte expressividade, gestos graciosos, um olhar acutilante e uma voz com uma amplitude que, a espaços, recorda a de Aldous Harding. Ainda pediu recomendações de um restaurante e, quase a fechar, recusou com piada um disco pedido: “Fica para a próxima. Da última vez que o fizemos correu mal”.

“Night, Perpetual” traz-nos um momento Kings of Convenience, com um lindo coro a duas vozes; “Every Incident” é quase stand up poetry, versos lidos com ferocidade; “Silent Movie Babe” pode bem transformar-se no hino nerd das pistas de dança; “Delta Plane” é território de expansão, quase um acto de bruxaria; “Shelley” é uma daquelas canções que os Belle and Sebastian terão inveja de não terem gravado; “Dew Pond” navega em território Beach House, isto antes de uma descida a grande profundidade; “Ache” traz-nos a voz de Sufjan Stevens, que vem preenchendo o vazio que nos deixou com algumas colaborações; “Bowling Ball”, com um certo som jazzístico, é já pura descompressão, com Flora Hibberd perdida no seu baile imaginário.

Para além de novos – 6 de 10 da nova rodela – e não tão novos temas, fomos ainda brindados com duas inesperadas e esmeradas covers: “New Skin”, dos The Wave Pictures, e “Whip Poor Will”, canção original de Jason Molina.
“Temos feito concertos com bandas de 4 ou 5 elementos, por vezes é estranho sermos só dois. Mas os pedais fazem o resto”, brinca a certa altura, mas a verdade é que esta formação serviu para mostrar o belo esqueleto de que são feitas as canções de Flora Hibberd, que parece agora caminhar para um universo feito de sintetizadores e uma pop que, se olharem bem de perto, não esquece nunca a pesada herança deixada pela folk. Cinco estrelas de concerto.
Fotos: Gonçalo Silva/ Last Tour Portugal
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Promotora: Last Tour Portugal











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