A dois dias do arranque do MEO Kalorama, festival que regressa ao Parque da Bela Vista, em Lisboa, nos dias 28, 29 e 30 de Agosto, o Deus Me Livro escolheu 10 concertos para ver nesta edição.
De Melbourne, Austrália, chegam as Folk Bitch Trio, banda formada por Gracie Sinclair, Jeanie Pilkington e Heide Peverelle. No seu indie folk, quase sempre feito de harmonias a três vozes, há letras que soam a confissões de igreja, vertidas com ironia e sarcasmo, e melodias que ajudam a superar o tédio, tudo enquanto fingimos ter atingido a maturidade emocional. Um concerto para assistir de copo de vinho na mão.
Se, para disfarce, os Daft Punk optaram por capacetes de robot futuristas, combinados com fatos que poderiam dar uma voltinha na passadeira vermelha, os canadianos Angine de Poitrine preferem usar máscaras bizarras, narizes protéticos, pinturas corporais, chapéus que fariam inveja ao Chapeleiro de Alice no País das Maravilhas ou roupas que dariam cartas em qualquer festa do pijama. O seu som, cujas descrições incluem palavrões como “microtonalismo”, “polirritmia” ou “estética dadaísta”, mistura matemática com uma estranha e impronunciável língua alienígena, ideal para se viajar no espaço ou no tempo. Quando o mundo decidir acabar, ponham a tocar um disco desta dupla e dancem, literalmente, como se não houvesse amanhã.
Melody’s Echo Chamber é sinónimo de pop francesa sofisticada, a que não falta um certo toque de experimentalismo. O lugar onde Melody Prochet se diverte entre a brincadeira e a criação, como se estivesse mergulhada na tranquilidade no seu quarto. A aventura começou com o longa-duração homónimo, mas talvez seja “Bon Voyage”, de 2018, o seu melhor cartão-de-visita. Afastada de Portugal durante dez anos, Prochet regressa com um novo disco – “Unclouded” (2025) -, prometendo um fim-de-tarde com sabor a algodão-doce.
Porque nem só de Rosalía se alimenta a cena musical espanhola actual, o MEO Kalorama recebe Judeline, nome artístico escolhido pela jovem cantora e compositora Lara Fernández Castrelo. Um nome que cruza o lendário “Hey Jude”, dos Beatles, com o alter ego Angel-a, nome da protagonista de “Bodhiria” (2024), o seu disco de estreia. Um álbum que viaja entre o flamenco Andaluz, a pop orquestrada de As Mil e Uma Noites e a vertigem electrónica, que tanto é capaz de nos hipnotizar como de nos fazer entrar de pés juntos na pista de dança. Pode bem ser uma das grandes surpresas desta edição.
Cantora, compositora e organista sueca, nascida em Gotemburgo em 1986, Anna von Hausswolff será, muito provavelmente, leitora de extintos como Edgar Allan Poe, Mary Shelley ou H.P. Lovecraft. Dona de uma discografia que se ouve como um sonho gótico, Hausswolff recorre de forma quase obsessiva ao órgão de tubos, um instrumento musical tradicionalmente usado em igrejas. Não sabemos se vai conseguir fazer passar um destes instrumentos pelo controlo de bagagem mas, seja como for, não deverá faltar no Kalorama uma atmosfera sombria e teatral, capaz de nos deixar em transe.
Este é um daqueles concertos que, ao primeiro olhar, mais parece um convite para uma festa de arromba. Ms. Lauryn Hill, co-fundadora desse monólito chamado Fugees, chega ao MEO Kalorama na companhia de Wyclef Jean, membro icónico dos Fugees, e dos convidados especiais YG Marley e Zion Marley, prometendo uma celebração intergeracional e histórica do hip-hop, do soul e do legado da família Marley. Espera-se uma revisita a alguns dos clássicos intemporais de “The Miseducation of Lauryn Hill” – e de outros hinos do grupo – e, quem sabe, um passeio pelo planeta Marley. Tem tudo para ser histórico.
Depois de uma carreira em que seguiram o trilho do harcore tradicional, os Turnstile mudaram as suas vidas – e as nossas – com o lançamento de “Glow On”, disco de 2021, uma epifania musical que conheceu o seu apogeu com “Never Enough”, um dos mais entusiasmantes discos lançados em 2025. Liderada pelo vocalista Brendan Yates, a banda de Baltimore alia o espírito e a atitude punk rock a uma sonoridade onde cabem peso, groove e melodias cativantes. São uma das mais incríveis bandas ao vivo, e será uma sorte estar por perto em mais mais um regresso a Portugal. Com eles, It`s never enough.
Formado em 1994 em Virginia Beach pelos manos Gene “No Malice” e Terrence “Pusha T” Thornton, o duo de hip hop Clipse consolidou o seu nome na história do rap graças a uma abordagem crua, cirúrgica e a atitude de um chef de estrela Michelin à volta do “coke rap”. A química entre os irmãos salta à vista, seja pela forma com que cozem todos os beats ou, mais recentemente, decidiram escrever letras longe da habitual ostentação deste planeta sonoro. Depois de um hiato iniciado em 2010, que incluiu uma conversão ao cristianismo – Gene “No Malice” – e a construção de uma sólida carreira – Pusha T -, a banda regressou em 2025 com o álbum “Let God Sort Em Out”, integralmente produzido pelo “padrinho” Pharrell Williams. Um monumento feito de letras pessoais, contraste de estilos e colaborações ao nível da Champions League, com bolas de ouro como Tyler, The Creator ou Kendrick Lamar.
Se são adeptos desse desporto musical conhecido como “countrygaze”, os norte-americanos Wednesday são certamente a vossa cena. Formada em 2017 em Asheville, Carolina do Norte, a banda norte-americana foi dando cartas no rock alternativo contemporâneo, com uma formação que mais parecia saída de um super-grupo: a carismática vocalista e compositora Karly Hartzman, a genialidade das guitarras de MJ Lenderman – que entretanto deixou de acompanhar a banda nas digressões – e o som melancólico do pedal – ou lap steel – de Xandy Chelmis. Em “Bleeds”, fantástico disco de 2025, o shoegaze, o grunge e o country dançam como se quisessem terminar a noite nos braços uns dos outros, servindo de cenário musical a letras que se lêem como romances sobre a vida sulista, feita de desgostos amorosos, pedaços de memórias ou traumas de viver em lugares à beira da estrada. A quarta-feira é mesmo o melhor dia da semana.
Não deixa de ser irónico que Robbie Williams, uma espécie de ovelha negra de um empreendimento musical chamado Take That, tenha sido de todos os membros desta galáctica boys band aquele que fez história na pop britânica, à boleia de hits como “Angels”, “Let Me Entertain You”, “Feel”, “Rock DJ” ou “She`s The One”. Nascido em Stoke-on-Trent em 1974, o artista enfrentou ao longo da sua vida duras batalhas contra a dependência e a depressão e, mais recentemente, partilhou abertamente o seu diagnóstico de autismo, trazendo uma nova luz sobre as dificuldades e os desafios emocionais que sentiu desde a juventude. Um concerto com muita nostalgia que, pelo meio, promete fazer verter algumas lagriminhas.
Promotora: Last Tour Portugal











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