Talvez se recordem do livro Era uma Vez em Watership Down, publicado em Portugal pela Via Optima (em 2006): a história de uma comunidade de coelhos que escapam às diversidades e procuram um novo habitat. Depois desse seu primeiro livro, Richard Adams escreveu Shardik, uma narrativa de fantasia ambientada no Império de Beklan. Shardik é um imponente urso. E é também o nome escolhido para o quarteto que se apresentou este Domingo, dia 2 de Agosto, no anfiteatro da Fundação Calouste Gulbenkian, num concerto integrado na 42ª edição do Jazz em Agosto.
Mal começou o concerto, as primeiras notas poderiam fazer evocar uma suculenta simbiose entre as orquestrações rigorosas de Frank Zappa e o power eternamente jovem de um descontraído e generalizado Metal. O violino de Sana Nagano (neste caso, de seis cordas, e munido de uma pedaleira considerável, que brilhará ao longo da noite) entra rapidamente em cena, rasga o ar, sangra a massa sonora… junta-se a guitarra de Matt Hollenberg, munida de riffs seguros e incitantes. Baixo eléctrico (pelas mãos de Nick Jost) e bateria (alegre e metodicamente percutida por Danny Sher) completam o quarteto. A integração dos quatro músicos dá-se rápida e naturalmente, equilibrando a destreza com a força. Há ecos de uma certa fase dos King Crimson (em especial “Red”, mas também “Earthbound” ou “Startless and Bible Black”).

Logo ao segundo tema poderiam adivinhar-se alguns fantasmas de Sonic Youth rondando o palco, mas a entrada sónica é interpelada pelo violino de Nagano e a composição segue por outros caminhos, onde a herança da Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin, não é despiciente. De algum forma, está traçado o mapa onde se erguerá o concerto.
A dupla de cordofones (violino e guitarra) dialoga e entrecruza-se com os outros dois elementos com grande facilidade a agilidade. A noite será preenchida por uma dezena de temas (intercalados pelo discreto coaxar das rãs no jardim), uma sonoridade onde pontuou por diversas vezes a influência evidente do Rock Progressivo, alguns apontamentos devedores do sinfónico, embora o ambiente dominante se manifeste na sua vertente mais arrojada (familiar a designada corrente RIO – Rock In Oposition). Todavia, a inventividade e a liberdade de acção de cada um dos elementos do colectivo nunca foram postas em causa.
Anunciado o último tema da noite, “Orbital Dance”, surgem outras influências, até aqui menos evidentes, a juntar-se ao conglomerado musical em que Sharik vai esculpindo o seu percurso: Grécia e os Balcãs são convocados, concedendo uma outra faceta a este poliedro, sem, contudo, descurar nada do que até ali se tinha disposto sobre o palco.

Matt Hollenberg regressa a Portugal oito antes depois de ter actuado no mesmo festival, o ano John Zorn Special Edition, em que foi dada Carta Branca ao músico – e editor – para fazer a programação. De facto, a consolidação da chancela Tzadik tornou-se não apenas um canal adequado para fazer circular o trabalho altamente frenético e diversificado de Zorn, como igualmente para dar a conhecer um conjunto de novos nomes (com o seu selo de garantia), tendo vários deles conquistado rapidamente a atenção da crítica e os ouvidos dos melómanos. Hollenberg que, além de integrar diversos discos do mentor dos Naked City, já tocou com Tim Berne ou John Medeski, viu o segundo disco deste projecto, Cruelty Bacchanal, publicado em 2025 (tal como o primeiro, na Tzadik). Baixo e bateria de Shardik são agora da responsabilidade de Nick Jost e Danny Sher, respectivamente. O primeiro vem da banda de Metal Baroness, o segundo dos Crippling Alcoholism (um colectivo entre um Dark Gótico e o Nu Metal).
A extraordinária violinista japonesa Sana Nagano (n. 1984), dotada de fortes estudos clássicos – que já trabalhou com agrupamentos numerosos liderados por Karl Berger ou Adam Rudolph, partilha os Atomic Pigeons com Hollenberg e conduz os Smashing Humnas (onde toca o contrabaixista Ken Filiano) -, acrescenta uma lufada de energia suplementar, fazendo de Cruelty Bacchanal um disco surpreendente, «acerca da erosão da erosão da empatia – como celebrar a violência e abraçar o niilismo se tornou uma demonstração de força na sociedade moderna. Essa ideia moldou o modo como a música se conjugou. Há essa sensação de tensão e resolução, como se as coisas estivessem constantemente a desfazer-se e a reformar-se novas maneiras. Elementos diferentes coexistem no mesmo espaço, às vezes trabalhando em conjunto, às vezes confrontando-se – tal como o mundo em que estamos agora» – escreveu o próprio guitarrista nas notas referentes ao álbum.

Depois do último tema, os fervorosos aplausos pesaram na decisão (não imediata) de regressarem ao palco. Matt Hollenberg mostrou-se mesmo surpreso e assegurou que não tinham nada preparado. E a verdade é o que tema extra se revelou um pouco diferente, uma verdadeira improvisação, numa linha muito mais orgânica, um discurso feito de frases curtas e saltitantes, trazendo à lembrança o produtor dos seus discos, o tal senhor John Zorn. Excelente noite musical, levando o Jazz para fora da zona de conforto.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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