“Sem Desvios” (Orfeu Negro, 2025) é um álbum ilustrado poderoso, maravilhoso, particularmente relevante pela forma delicada, sensível e, ao mesmo tempo, frontal, como aborda questões sociais como a pobreza, a injustiça e a responsabilidade ética de olhar o outro.
Comecemos pela capa. É apresentado, ao leitor, o cenário onde se passa a narrativa e as personagens, mãe e filha. Onde irão? O que se passará nesta caminhada? O que nos quererá dizer o título? “Sem desvios” significa recusar a fuga, a distracção ou a indiferença perante situações de vulnerabilidade humana. O título funciona, assim, como síntese da mensagem do livro. Num plano metafórico, transforma-se num apelo ético: encarar a realidade sem contornar aquilo que nos inquieta: “Todos os dias, o mesmo caminho para a escola. Atravessamos no sinal, passamos pelos prédios altos, depois seguimos ao longo do parque. (…) A seguir, chegamos diante da padaria que fica mesmo ao lado da escola. Todos os dias, lá está aquela senhora sentada no chão com o bebé pequenino nos braços.”

O livro constrói a narrativa a partir da repetição de um percurso quotidiano: todos os dias, no caminho para a escola, a personagem principal cruza-se com a mesma realidade desconfortável: uma mulher sentada no chão com um bebé ao colo. A força da narrativa está, precisamente, nessa insistência do olhar sobre aquilo que tantas vezes preferimos ignorar. O texto apresenta o conflito interior de uma criança, confrontada com uma realidade – dura, frágil, inquietante – que ainda não compreende totalmente, mas que sente com intensidade. Esta perspectiva infantil torna a narrativa profundamente honesta, revelando que, muitas vezes, as crianças conseguem reconhecer a injustiça com uma clareza que os adultos tendem a disfarçar com explicações vagas ou a indiferença.
Este é um livro sobre o olhar, sobre a ética do olhar, especialmente pertinente nos nossos dias. Vivemos numa sociedade saturada de imagens e informação, mas paradoxalmente marcada por uma crescente banalização do sofrimento alheio. Muitas vezes vemos sem realmente olhar. A leitura deste livro, o diálogo em seu torno, recorda-nos a importância da empatia, de olhar eticamente, isto é, de assumir que o olhar nunca é neutro – pode silenciar ou dar voz, tornar invisível ou reconhecer, afastar ou aproximar-nos do outro. A ética do olhar refere-se à responsabilidade que temos, quando observamos o outro e o mundo que nos rodeia. Não se trata apenas de ver, mas de reconhecer aquilo que é visto, atribuindo-lhe valor e significado. Olhar eticamente recusa a indiferença e o afastamento perante o sofrimento, a injustiça ou a vulnerabilidade, implicando respeito pela dignidade humana.

A ilustração desempenha um papel essencial na construção de sentido. O traço minimalista e depurado de Tom Haugomat, característico pela economia de formas e pela expressividade contida, amplifica o silêncio emocional do texto. As ilustrações sugerem, obrigam o leitor a parar e a observar. Há uma intencionalidade visual: ver verdadeiramente. O espaço, as cores e os enquadramentos criam uma atmosfera de suspensão, que convida à reflexão e reforça a tensão entre olhar e desviar o olhar. As guardas, iniciais e finais, ampliam um detalhe da narrativa, encaminha o nosso olhar para o foco, para a personagem principal. Um livro belíssimo, para ler e dar a ler, para dialogar e aprender a ver.











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