“O Dinossauro da Casa ao Lado” (Fábula, 2025) é livro delicioso, afectuoso. Um louvor à disponibilidade para olhar, atentamente, aquilo que sempre esteve perto e nem sempre conseguimos ver. Numa primeira leitura, poder-se-á pensar que se trata de uma narrativa simples: Lisa observa o seu vizinho e desconfia que ele esconde um segredo. No entanto, a narrativa apresenta-se mais ampla e sensível.
Lisa, pequena especialista em dinossauros, reconhece aquilo que os adultos parecem não ver — ou não querer ver. Por detrás do disfarce banal, o seu vizinho, o amável Sr. Wilson, é um ser diferente, deslocado, talvez vulnerável. “A Lisa não percebia como é que mais ninguém via isso. Contou à mãe, mas ela estava muito ocupada a preparar uma apresentação. Contou ao professor, mas ele estava muito atarefado a escrever. Contou à turma, mas todos se riam”. A narrativa constrói-se precisamente neste jogo entre a evidência e a negação: aquilo que é visível para a criança torna-se invisível ao olhar social.
A imaginação, neste livro, não é uma fuga à realidade, pelo contrário – é uma ferramenta para a ampliar. Ao aceitar que o Sr. Wilson pode ser um dinossauro, Lisa não está a distorcer o mundo; está a torná-lo mais habitável, mais diverso, mais aberto à possibilidade de que o diferente também pertence ao nosso mundo. Neste sentido, o álbum propõe uma ideia muito concreta: a forma como olhamos determina o mundo que construímos.

Um olhar cerrado produz exclusão; um olhar imaginativo cria espaço para o encontro. Lisa, com o seu olhar atento e curioso, humaniza a possibilidade de transformação, isto é, não muda apenas a forma como vê o outro, muda o próprio significado de comunidade, que se torna aquela que aceita e acolhe verdadeiramente a diferença. Por isso a “multidão gritava em uníssono – Soltem-no!”, quando o Sr. Wilson foi preso e apresentado como uma Grande Descoberta Científica.
A narrativa articula-se com a imagem de uma forma peculiar. As ilustrações de David Litchfield são densas, luminosas, profundamente cinematográficas. Há um cuidado evidente na construção dos cenários urbanos – ruas, casas e janelas, que funcionam quase como palcos onde a história se desenrola em múltiplos planos. O leitor não vê apenas o que o texto diz, consegue ir além do dito. A paleta cromática, rica e calorosa, cria contrastes entre rotinas quotidianas e mundos extraordinários. O dinossauro, apesar da sua dimensão e estranheza, integra-se visualmente no espaço, como se sempre tivesse pertencido ali. A luminosidade contribui significativamente para a ideia de acolhimento, de calor emocional, de pertença.
As guardas, iniciais e finais, estão longe de serem meramente decorativas, funcionando como um verdadeiro enquadramento narrativo. As iniciais causam estranheza e curiosidade, enquanto as finais, após a experiência narrativa, confirmam a transformação, a aceitação e integração. Um livro para ler e dar a ler; para dialogar, numa exploração das ilustrações.











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