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Lembras-te?, Sydney Smith, Deus Me Livro, Fábula, Crítica,
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“Lembras-te?” | Sydney Smith

Por Julia Martins · Em 25/06/2026

Sydney Smith já venceu o prémio Hans Christian Andersen, a mais alta distinção internacional atribuída a autores e a ilustradores de livros infantis, além de ter conquistado outros prémios e nomeações relevantes. Ilustrador e escritor canadiano, já nos espantou com livros maravilhosos, que ficam a habitar em nós durante muito, muito, tempo.

“Lembras-te?” (Fábula, 2025) é um livro belíssimo, elegante, delicado, sensível e profundamente evocativo, que convida o leitor a mergulhar no universo das memórias e na forma como estas moldam a [nossa] identidade e a visão do futuro: “Lembras-te…daquela vez que fizemos um piquenique no campo? (…) Lembras-te do meu dia de anos? (…) Lembras-te…da tempestade? (…) … de quando deixámos a nossa casa?”.

Com uma narrativa subtil e poética, o livro constrói-se a partir de uma conversa íntima, entre mãe e filho, aconchegados debaixo dos lençóis, feita de recordações partilhadas e memórias favoritas, onde o passado surge como um espaço de afecto, descoberta e permanência. Será que as recordações poderão transformar-se em memórias? Afinal, como se constroem memórias?

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A narrativa desenrola-se com uma aparente simplicidade, mas revela uma grande densidade emocional. Através de uma sucessão de memórias evocadas, o texto conduz o leitor por momentos quotidianos que ganham uma dimensão quase universal – instantes que, embora pequenos, permanecem gravados e adquirem significado pela força da ligação humana que encerram. Há, nesta construção narrativa, uma cadência serena e contemplativa, que permite ao leitor reconhecer-se nas sua páginas, revisitando as suas próprias lembranças e compreendendo que são elas que ajudam a dar sentido ao presente.

“Lembras-te?” celebra o valor de proteger, de guardar as boas recordações. As memórias felizes não são apenas fragmentos do passado – são refúgios, alicerces e pontos de orientação que nos acompanham ao longo da vida. Guardá-las é preservar aquilo que nos constrói, o que nos torna naquilo que somos, é manter viva a capacidade de (re)encontrar bem-estar, sentido(s) e pertença, mesmo quando a mudança ou a incerteza estão perante nós.

Não é um livro triste, pelo contrário. É profundamente esperançoso, recorda-nos que lembrar não significa ficar preso ao passado e que as memórias sustentam a confiança no futuro. Ao revisitarmos os momentos de afecto, descoberta e beleza que vivemos, reforçamos a convicção de que haverá ainda muito por viver, recordar e (re)construir.

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O traço expressivo e singular de Sydney Smith amplia e completa aquilo que as palavras silenciam. Obriga-nos a valorizar pequenos detalhes, a apreciar gestos que parecem insignificantes. As ilustrações surgem frequentemente organizadas em forma de vinheta, como pequenos enquadramentos que fragmentam o fluxo narrativo e recriam a própria natureza descontínua da memória. Tal como as recordações surgem na mente em flashes, recortes e imagens dispersas, também aqui cada vinheta funciona como um instante captado, um fragmento preservado no tempo. Esta opção gráfica aproxima o leitor do funcionamento da memória humana, feita de episódios soltos que, reunidos, constroem uma narrativa maior.

O jogo entre luz e sombra, a fluidez das pinceladas e a delicadeza das composições conferem às páginas uma dimensão quase cinematográfica, transportando o leitor para uma paisagem emocional, onde cada cor e cada enquadramento traduzem estados de espírito, afectos, emoções e o próprio movimento da memória.

No final, há uma ilustração da mãe e filho que se apresenta de forma mais difusa, quase esbatida, como se estivessem envoltas na névoa própria da distância temporal. Este efeito visual é particularmente expressivo, traduzindo com grande sensibilidade a forma como certas lembranças permanecem incompletas, vagas ou imprecisas, conservando apenas contornos emocionais e como as memórias são importantes na vida.

Um livro para ler devagar. Para contemplar, recordar e dialogar. Para reflectir sobre a permanência das ligações humanas e sobre a forma como as memórias nos ajudam a viver. Um livro poético, exceocional e soberbo.

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Julia Martins

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