Atormentada pela vergonha que sente da mãe, uma mulher vive duas vidas. Na maior parte do tempo, chama-se Clarisse. Porém, nas visitas secretas que faz mensalmente à mãe, usa o nome que esta lhe deu: Malinka.
O ponto de vista de Clarisse/Malinka é o primeiro que encontramos em “Ladivine” (Alfaguara, 2025), da francesa Marie NDiaye – um livro que foi finalista do Booker Prize, em 2016, e do International Dublin Literary Award, em 2018. Devido às nomeações, surpreende que o início se afigure ligeiramente repetitivo, na evocação do passado de Clarisse e no desenvolvimento da relação complicada com a mãe – uma mulher esforçada, que ganha a vida a fazer limpezas. Para o mundo, Clarisse mata essa mulher, mas não consegue matar a má consciência que lhe causa o seu próprio comportamento, por mais que lhe ofereça presentes e ajuda financeira. Em consequência, e para não revelar a sua dupla identidade, habitua-se a não dizer nada remotamente pessoal, anulando-se na sua dedicação à família que construiu. O marido e a filha de Clarisse, por ignorarem a astúcia que ela usou para romper com o passado, tomam-na por uma mulher de pouco discernimento, inocente e desprovida de orgulho, ao mesmo tempo que se ressentem da “fina muralha de gelo” que construiu em torno da sua pessoa.
Com uma certa ironia triste, Clarisse desaparece pouco tempo depois de decidir voltar a ser Malinka, deixando-nos em contacto directo com a sua mãe e a sua filha, que curiosamente partilham um nome: Ladivine. A narrativa respeitante à mais velha não se desvia do expectável, mas a da mais nova é repleta de mistérios. Durante umas férias dignas de um filme de terror, que aniquilam a “sensata” vida familiar com marido e filhos, um crime é cometido (ou, afinal, talvez não) e outros são insinuados (mas nunca esclarecidos). A ocasião culmina num estranho desaparecimento, destacando-se a figura tão persistente quanto enigmática de um cão que parece saído de um contexto de realismo mágico.
Através dos percursos de Clarisse, de Ladivine filha e dos maridos de ambas, são desenhados ciclos de mágoa e incompreensão. Há progenitores ultrajados, amores destruídos, simulacros e afastamentos em direção a novas existências que nunca rompem eficazmente com as anteriores. A profundidade psicológica torna o livro recomendável para quem aprecia extensas descrições da vida mental das personagens e das suas insatisfações, mas menos aconselhado para quem preferiria que isso se compatibilizasse com respostas às incógnitas do enredo.











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