“Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin”. É assim que, aos 20 anos de idade, Marcelo sofre uma lesão na medula espinal e fica paralisado. Permanece debaixo de água, sem dor, mas incapaz de mexer braços ou pernas, com a mente num torvelinho face ao receio de morrer afogado, até ser trazido à superfície e levado para um hospital. O jovem, que nunca ouvira falar dos riscos de mergulhar de cabeça, demora a aperceber-se da gravidade do acidente: acredita que tudo se resolverá com uma injeção e pede que não lhe cortem as unhas com que toca violão, porque nesse fim de semana iria entrar pela primeira vez num estúdio profissional para fazer uma gravação.
Esta tragédia e a luta contra as suas consequências, ao longo de um ano, formam o cerne de “Feliz Ano Velho” (Dom Quixote, 2025 – reedição), uma narrativa auto-biográfica publicada pela primeira vez no Brasil em 1982 – tendo recebido o Prémio Jabuti de Literatura na categoria Autor Revelação – e, em 1991, em Portugal. Foi o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva, que mais tarde escreveria também “Ainda Estou Aqui”, adaptado ao cinema por Walter Salles em 2024.
Numa linguagem irreverente, o autor tenta transmitir o choque de perceber que actos tomados por garantidos são agora um sonho, e que os planos para o futuro mais próximo têm de dar lugar a um presente feito de novos rituais, adaptados às limitações que se vai esforçando por ultrapassar, com a ajuda de um colete de ferro e muita fisioterapia. Pelo caminho, descobre que não é um caso único, e anima-se com os progressos possíveis, como na ocasião em que consegue voltar a endireitar-se o suficiente para assistir ao pôr do sol.
É uma jornada tocante, complementada por recordações de infância e adolescência: o desaparecimento do pai nas malhas da ditadura militar, a vida de estudante, os amores, o activismo universitário e a esperança de triunfar no mundo da música. Sente-se o carinho imenso do autor pela família, pelos amigos e pelos profissionais de saúde, além de um sentido de humor que parece nunca o abandonar, nem quando questiona as injustiças do destino – “é muito sofrimento prum carinha de vinte anos que nunca fez mal a ninguém” –, mesmo quando se dispõe a aceitar qualquer tipo de ajuda, venha ela de onde vier – “Preciso da ciência, das drogas, dos bisturis. Por favor, não me deixem só. Alguém aí tem um remédio? Acupunctura? Macumba? Reza? Deus?”.
O arrepio que este testemunho causa poderia levar-nos a um discurso bem-intencionado sobre exemplos, mas o autor rejeita esse papel e a sua vontade é digna de respeito: “não estou a fim de passar nenhuma lição […] Não sou modelo para nada. Não sou herói, sou apenas vítima do destino, dentre milhões de destinos que nós não escolhemos”.











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