“Feitas de Culpa” (Dom Quixote, 2025), da búlgara Joanna Elmy, começa entre dois extremos da existência: a morte e o nascimento. Dois momentos que, supostamente, pertencem à comunidade, mas que permanecem profundamente solitários. São acontecimentos testemunhados, mas nunca verdadeiramente partilhados. Em ambos, o corpo torna-se objecto — instrumento de narrativas alheias —, e a pessoa reduz-se a causa e efeito das decisões, vontades ou omissões dos outros.
Desde as primeiras páginas, instala-se a sensação de que nascer já implica uma dívida. A jovem Yana emigra para os Estados Unidos, vivendo sob a impressão constante de ter sido “malparida” para o mundo onde agora habita. A sua existência parece exigir explicações permanentes. Caminha pedindo desculpa por ocupar espaço, tentando tornar-se invisível numa sociedade que a observa como quem olha alguém recém-chegado de lugar nenhum.
Yana integra a evolução geracional de três mulheres da sua família que explora a culpa herdada, transmitida, transformada e interiorizada de formas diferentes em cada momento. Podemos lê-la como uma genealogia da culpa feminina, moldada pela história, pela migração e pelas expectativas sociais. Tendo como pano de fundo a evolução do próprio país, a geração mais velha cresce sob regimes autoritários e contextos de escassez. A culpa nasce, aqui, como culpa por sobreviver e continuar a viver quando tantas escolhas eram impossíveis, manifestando-se como resignação. A segunda geração vive a transição pós-comunista na Bulgária, quando já existe liberdade formal mas não estabilidade. A promessa de futuro substitui a segurança do passado; sem conseguir cumpri-la, a culpa é fundamentalmente sentida do ponto de vista relacional. Por último, na protagonista, a culpa é entendida como identidade, por existir num país que não é o seu, por ter oportunidades que a família não teve, por não conseguir sentir pertença plena ou conseguir regressar ao passado. O mais interessante no romance é perceber como a culpa muda de forma ao longo das gerações: tendo mais liberdade que a anterior anterior, tem também mais consciência e maiores níveis de auto-censura.
A infância na Bulgária dos anos noventa foi marcada pela escassez persistente, após a queda de um regime e a promessa falhada de prosperidade. A fome, literal e simbólica, atravessa a narrativa como uma herança emocional. Não é apenas falta de alimento: é falta de pertença, de estabilidade, de um futuro previsível. É o ponto de partida de uma identidade construída na carência. Em contraste, a América apresenta-se como o território do sonho, mas um sonho que cobra juros elevados. O país que acolhe é, também, o país que mede, classifica e explora. A emigração aparece associada a um pacto implícito: a promessa de oportunidade em troca de uma culpa silenciosa por existir, ocupar e competir.
Joanna Elmy confronta o mito do sonho americano com muitos detalhes habitualmente ocultos. A América acolhe sem verdadeiramente receber; inclui, mas sublinha a diferença; oferece mobilidade, enquanto instala precariedade emocional. Para Yana, a mais nova das três mulheres do livro, o preço da liberdade revela-se demasiado alto pelo peso das suas próprias errâncias. Como se lê a dado momento, “as pessoas gostam que lhes vendam o sonho americano. O horror de todas as histórias de encantar está sempre escondido no texto com a letra mais pequena”.
“Feitas de Culpa” é um romance sobre a vergonha de existir fora do lugar de origem e a impossibilidade de regressar intacto. Um livro sobre culpa herdada, culpa imposta e culpa interiorizada e, também, sobre a tentativa – talvez impossível – de viver sem pedir desculpa por estar vivo.











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