Enrique Vila-Matas é um daqueles escritores que parece encontrar um prazer genuíno em falar de livros e de literatura, conferindo-lhes uma vida própria que transcende tanto o autor como o leitor. Cada referência literária ganha uma existência para além das páginas e das palavras que lhe dão forma, integrando-se numa conversa interminável entre obras, escritores e leitores. É o que mais uma vez acontece no seu mais recente livro, “Cânone de Câmara Escura” (D. Quixote, 2026).
Vidal Escabia, protagonista deste romance, vê-se confrontado com a tarefa de criar um cânone intempestivo a partir da biblioteca que herdara do seu mestre. A incumbência transforma-se num desafio de vida: ler como se não houvesse amanhã, encerrado numa sala mal iluminada, porque, como afirma, “sem as sombras, os livros de que tanto gostamos não seriam nada”. O seu cânone será composto apenas pelos livros que reconhece como verdadeiramente seus, aqueles aos quais pode regressar sem jamais lhes esgotar o sentido. A metodologia de elaboração do cânone possui algo de ritualístico: entrar no quarto escuro onde os livros estão temporariamente guardados, escolher quase às cegas um livro ao acaso, transportá-lo para junto da luz da janela, encontrar um fragmento que seduza e, se for eleito para tal, registá-lo no cânone.
Ao longo dessa construção, Vila-Matas conduz-nos por um vasto universo literário, livre de hierarquias rígidas e de retóricas pré-estabelecidas. Entre as vozes convocadas surge, por exemplo, a de Gonçalo M. Tavares, para quem “o fragmento tem qualquer coisa de potência presente que não precisa do passado nem do futuro”.
Vidal Escabia é, também, um escritor permanentemente assombrado por questões de identidade. Compara-se incessantemente ao mestre e interroga-se sobre a autenticidade da sua própria existência. De discreto viúvo com uma filha que não vê há um ano, passa a sentir-se um ser potencialmente fabricado, alguém cujas memórias lhe foram implantadas sem que disso tenha consciência.
Para além da dimensão especulativa do romance, que insinua a possibilidade de o narrador ser um andróide infiltrado entre os habitantes comuns de Barcelona, a leitura possui uma beleza que ultrapassa aquilo que é explicitamente dito. Os diálogos entre Vidal e Violet, personagem misteriosa e quase irreal, aprofundam ainda mais a indefinição entre realidade e imaginação. Muitas vezes parecem diálogos interiores, manifestações de uma consciência fragmentada que procura compreender-se a si própria. O desafio de Vila-Matas parece consistir em fazer coexistir a dor do narrador, a alucinação de uma existência paralela, a reflexão sobre a inteligência artificial e o poder transformador da cultura. Essa convivência nem sempre torna a leitura fácil; por vezes, exige do leitor disponibilidade para aceitar a ambiguidade e a dispersão. Ainda assim, permanece um ganho inegável: é raro encontrar um romance capaz de compatibilizar, com semelhante subtileza, a meditação sobre o humano, a literatura e a memória.
No processo de construção do cânone há uma procura humilde da essência dos livros, para lá do prestígio dos títulos, das modas editoriais ou dos preconceitos associados ao estatuto cultural. Descobre-se a natureza íntima da escrita através de fragmentos aparentemente descomprometidos, capazes de revelar aquilo que permanece oculto. Talvez fosse interessante que também as livrarias e as bibliotecas permitissem, por vezes, esta experiência: escolher livros sem a mediação de capas cintilantes ou frases promocionais que frequentemente vendem mais do que a verdadeira substância da obra.
À medida que os dias avançam, o narrador vai apresentando os livros que integra no seu cânone, justificando as suas escolhas e reflectindo sobre aquilo que as sustenta. Simultaneamente, antecipa o olhar desconfiado do leitor que possa confrontar-se com uma selecção tão pessoal e inevitavelmente arbitrária.
Numa entrevista à Renascença, Enrique Vila-Matas definiu-se antes de mais como um “leitor que escreve”. Essa condição atravessa profundamente “Cânone de Câmara Escura”, um livro que celebra a leitura, não apenas como exercício intelectual mas, também, como forma de construção da identidade.











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