“Brincamos na Neve” (Akiara Books, 2024) é um álbum maravilhoso, onde a narrativa nasce da imagem. É um silent book, o mesmo que dizer um livro sem palavras. Exige, da parte do leitor, uma leitura diferente, pedindo-lhe disponibilidade para ver e apreciar lentamente os pormenores.
Ao contrário do que se possa pensar, trata-se de uma experiência de leitura activa, uma vez que é o leitor – cada um à sia maneira – que cria o percurso de leitura, construindo sentidos e antecipando acontecimentos. Nada está definido à partida: tudo é disperso e cada leitor fará o seu caminho.
Há, também, uma aproximação à linguagem cinematográfica: cada página dupla é um plano aberto, onde várias acções decorrem em simultâneo, oferecendo múltiplos focos possíveis. O leitor poderá seguir um grupo que constrói um boneco de neve enquanto, ao fundo, outro se perde ou escorrega. A história desdobra-se em camadas, convidando a releituras sucessivas.

As ilustrações de Verónica Fabregat são o centro, o farol da narrativa. O traço é a lápis de cor, as imagens são minuciosas. O detalhe não é decorativo, pelo contrário, é estrutural, uma vez que é aqui que a narrativa se organiza e se torna legível. A paleta cromática é dominada pelo branco da neve, criando um equilíbrio delicado entre simplicidade e riqueza. O branco não é ausência: é espaço de inscrição, de significado.
As guardas iniciais funcionam como uma espécie de preparação do olhar, um convite a memorizar, a observar, a entrar no jogo, enquanto as guardas finais marcam uma transformação subtil. Ambas, marcam o ritmo da narrativa: sair, explorar e regressar.
Afinal, do que nos fala esta narrativa visual? A premissa é simples: sete crianças saem para brincar na neve, numa manhã branca e luminosa. Vestem-se, deslizam, constroem, caem, perdem-se e reencontram-se. Uma sequência de acções aparentemente triviais, mas que, no conjunto, compõem uma pequena narrativa de intensidade e descoberta.

Esta fantástica narrativa visual conduz o leitor ao mundo infantil, sem a presença dos adultos, onde as crianças exploram o espaço, testam os limites, enfrentam pequenos riscos. A neve, com a sua beleza, pureza e instabilidade, torna-se o cenário ideal para uma experiência única e, ao mesmo tempo, um convite ao jogo e ao território de incerteza. No final, o leitor ensaia a sensação de um tempo vivido intensamente.
Um excelente álbum que nos revela que, por vezes, é no silêncio que a narrativa se torna mais ampla e significativa e, por isso mesmo, mais nossa. Talvez contar uma história não dependa apenas do poder das palavras.











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