“A Nossa Hora” (Alfaguara, 2025), de Héctor Abad Faciolince, pode ser lido como uma homenagem às vítimas do ataque russo, ocorrido em 2023, que atingiu uma pizzaria em Kramatorsk, entre as quais a escritora ucraniana Victoria Amelina. Essa leitura, embora justa, é insuficiente. O livro é sobretudo uma meditação sobre o que significa sobreviver — e sobre a culpa que a sobrevivência pode carregar.
A literatura, tantas vezes acusada de inutilidade, é aqui colocada perante a sua prova mais dura: pode a palavra enfrentar a barbárie? Quando Faciolince descobre que excertos do seu livro “Somos o esquecimento que seremos”, também editado em Portugal pela Alfaguara, foram lidos em voz alta num abrigo subterrâneo durante bombardeamentos, a escrita deixa de ser exercício estético e torna-se instrumento de resistência. Não salva corpos, mas suspende o medo; não impede a morte, mas preserva a dignidade.
“A Nossa Hora” surge como um livro atravessado pela dúvida. Ao aceitar o convite para viajar até Kyiv em pleno conflito bélico, o autor fá-lo num gesto que mistura solidariedade, curiosidade moral e talvez uma certa necessidade de provar a si mesmo que ainda está do lado da vida activa. Aos 65 anos — a mesma idade em que o pai fora assassinado —, a viagem adquire um peso simbólico inescapável. Aproximar-se da guerra era, também, desafiar a própria finitude.
Qual o nosso lugar diante de uma guerra? Parece ser esta a questão ética que o autor pretende colocar a si mesmo, como se procurasse algum tipo de validação. Como testemunha, escolheu aproximar-se da linha da frente para ver, compreender e narrar. Escolha que pode ser moralmente ambígua, entre o dever de testemunhar e a vaidade de querer estar presente na História.
O livro confronta-nos com o desconforto da sobrevivência que, no caso, surge como um acaso, uma vez que Faciolince estava lá, na Pizaria Rio e sentado ao lado de Victoria Amelina. Mas viver depois de sobreviver exige uma decisão. Ficar escondido, recolher-se numa cave, abdicar do espaço público, pode ser uma estratégia de auto-preservação, mas também pode significar a abdicação da responsabilidade cívica. Continuar a ir ao teatro, beber café numa esplanada, escrever, falar — tudo isso pode parecer banal, mas é também uma forma de afirmar que a vida não será reduzida ao medo.
Faciolince interroga igualmente o determinismo: existirá “a nossa hora”? Há um instante previamente traçado para cada um? Ou somos apenas atravessados por probabilidades cegas? A proximidade da morte revela a fragilidade das nossas narrativas de controlo. O corpo envelhece, falha, aproxima-se do limite. A mente insiste em projectar futuro. Entre ambas, instala-se uma tensão que é simultaneamente física e abstrata.
O relato evolui de um registo quase jornalístico para um tom mais confessional. A contenção inicial cede lugar a uma escrita que assume a vulnerabilidade do autor. Faciolince não se apresenta como herói nem como mártir; apresenta-se como alguém que hesitou, que sentiu medo, que se afastou quando outros ficaram, com uma honestidade que é desarmante no livro.
No fim, a literatura surge como forma de fidelidade, de combater o esquecimento, reconhecendo que as palavras não impedem a violência mas podem impedir a indiferença.











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