Primeiro houve “O Mangusto” (ler crítica), um álbum sobre a perda, a reparação e a urgência do quase esquecimento como forma de sobrevivência. Logo a seguir, Joana Mosi ofereceu-nos este “A Educação Física” (Iguana, 2024), um livro dentro de um livro que tem, como protagonista, Laura, alguém com o apertado prazo de um ano para escrever um novo livro.

A dedicação à causa tem, porém, de conviver com coisas mundanas da vida, seja ir ao ginásio, arrumar e limpar a casa dos avós ou decidir onde pendurar um quadro. De cada vez que vai ao ginásio, Laura ouve uma amiga recordar as aulas de Educação Física, onde ia alternando um arsenal de desculpas para se poder baldar, fossem enxaquecas, dores de estômago ou a chegada do período.
Enquanto acompanhamos as inquietações criativas de Laura, que se degladia com que história quer contar – e se o livro tem mesmo de ter uma história -, acompanhamos os seus desvios aos cursos universitários, os empregos temporários que a dado ponto deixaram de o ser, a relação com um tipo casado e a ainda mais complicada relação com a mãe, que diz juntar ao papel de mãe os de colega de casa, senhoria e criada.

Neste livro aparentemente sem história, Joana Mosi viaja a preto e branco num traço variado, como se assistíssemos a um teste de espessuras de canetas e lápis, a que se vão juntando ecrãs azuis, dedicados a pesquisas na web, previsões astrológicas e trocas de mensagens deixadas abertas em pequenas caixas. Há, também, muitos grandes planos em quadrados diminutos, sobretudo de mãos e outras partes do corpo, num livro que abre as portas ao universo pessoal e criativamente fascinante de Joana Mosi.











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