“A Casa Invisível” (APCC, 2024) é um pequeno livro que fica a habitar no nosso coração durante muito tempo. Um livro delicado, profundamente poético, que aborda a invisibilidade nas nossas vidas. Invisibilidade que é, muitas vezes, uma presença silenciosa que sustenta a nossa vida, escondendo gestos quotidianos de cuidado, emoções não verbalizadas, fragilidades, medos e até formas de trabalho e dedicação que passam despercebidas. Aquilo que não se vê não deixa, porém, de existir; pelo contrário, pode ser o que mais profundamente nos define e liga aos outros. A invisibilidade tem uma forte dimensão simbólica: representa tudo o que está para além do imediato, do evidente, convida-nos a desenvolver uma atenção mais sensível e consciente. Lembra-nos de que a realidade não se esgota no visível e que, compreender o mundo, exige ir além da superfície.
“A casa invisível não se vê, mas fica num lugar à vista de toda a gente. (…) A casa invisível tem um telhado que começa ao contrário. (…) A casa invisível tem um galo que ninguém vê. (…) A casa invisível guarda uma bordadeira muito discreta. (…) Na casa invisível cabem muitas memórias. (…) Será esta uma casa mesmo invisível? Ou somos nós que não a conseguimos ver?”.

O livro de Francisca Camelo parte de uma imagem simples e enigmática: a existência de uma casa onde todos vivem, mas que ninguém consegue ver. A casa é habitada por “mil mãos pequeninas que nunca param de trabalhar”, mãos que cuidam, organizam e sustentam a vida quotidiana. O texto desenvolve-se num registo lírico, quase meditativo. Ao virar de cada página, o leitor é abraçado por um conjunto de imagens e sensações de afecto, de pertença – a casa invisível revela-se uma metáfora profundamente humana.
A casa invisível é o lugar simbólico onde habita o nosso eu, o cuidado, o amor, os pequenos gestos quotidianos, a presença dos outros, a(s) nossa(s) vida(s). Aquilo que não se mede nem se observa directamente, mas que se sente. Afinal, o mais importante não é o que está à vista, mas aquilo que se constrói nas relações, no afecto e na memória. As teias da invisibilidade poderão ser tecidas por nós próprios, quando ignoramos o que nos desconforta ou quando não damos espaço ao que não é facilmente explicável ou mensurável. Tornar visível o invisível implica um esforço de escuta, de empatia e reconhecimento, é um exercício ético.

As magníficas ilustrações de Carolina Celas são determinantes para tornar visível esse invisível. As imagens aproximam o leitor do quotidiano, representando espaços familiares e reconhecíveis, carregando-os de uma dimensão simbólica e afectiva. O traço e as cores concretizam o não dito, transformando o invisível no visível. Palavras e imagens dialogam de forma harmoniosa e elegante – enquanto o texto sugere e evoca, a imagem acolhe e materializa.
“A Casa Invisível” é um livro que transforma o quotidiano em reflexão poética, mostrando que aquilo que realmente sustenta a vida é o invisível, o que nem sempre se vê, mas que é precisamente aquilo que mais importa.











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