Foi há vinte anos que, então com 35 anos, Kiran Desai se tornou a mais jovem escritora a vencer, com o romance “A Herança do Vazio”, o Booker Prize. Um feito – ou pormenor estatístico – que viria a ser suplantado por Eleanor Catton em 2013 que, então com 28 anos de idade, levaria para casa o prémio com “Os Luminares”. Catton demoraria dez anos para publicar o seu terceiro romance – “O Ensaio” surgiu antes das honrarias -, “A Floresta de Birnam” e, se tudo correr bem, no primeiro mês do próximo ano chegará às livrarias “Doubtful Sound”, que tem sido descrito como um thriller ambientado na região dos fiordes da Nova Zelândia. Quanto a Kiran Desai, demorou vinte anos a publicar “A Solidão de Sonia e Sunny” (The Loneliness of Sonia and Sunny – no original), acabado de aterrar nas livrarias, e uma rápida investigação conta-nos uma história atravessada por uma obsessão, que terá incluído um processo de escrita compulsivo, um manuscrito que ia crescendo a cada dia e muitas crises existenciais e criativas.
Quando imprimiu pela vez o rascunho do que viria a ser “A Solidão de Sonia e Sunny”, Desai deparou-se com um manuscrito de 5000 páginas. Para além do tamanho monstruoso, Desai sentiu que lhe faltava um “centro narrativo”, tendo passado os oito anos seguintes na tarefa de cortar, podar, reinventar e, com sorte, descobrir o fio que transformaria uma história de amor uma saga geracional que atravessa quatro continentes. Até lá, fez-se valer de bolsas e adiantamentos, fazendo deste livro o amigo imaginário que a acompanhou, numa caminhada a raiar a loucura, durante as últimas duas décadas.
Quem esteve na companhia de Kiran Desai na Livraria do Mercado, sentada ao lado de Luís Ricardo Duarte para uma entrevista de vida integrada no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, estaria longe de imaginar toda esta vertigem vivida pela escritora indiana, que entre a tranquilidade e o humor nos resumiu duas décadas de crise existencial.
“A origem deste livro remonta aos tempos em que era estudante em Vermont”, começa por nos contar Desai. “Na Índia nunca estamos fisicamente sozinhos. Esses tempos de estudo foram a minha experiência de solidão, uma solidão dolorosa que mais tarde quis levar para a transcendência da experiência artística”. Um período onde o tempo parecia não ter pernas para correr, podendo mergulhar em “histórias de amor” como “Anna Karenina”, “O Amor em Tempos de Cólera”, “Terra de Neve” ou “O Castelo”, que a levaram a pensar no papel desempenhado pelas famílias e de como as suas histórias pesam sobre as relações individuais.

“Uma história de amor pode seguir diferentes caminhos hoje em dia. Mais do que seguir a ideia de que o amor vence todos os obstáculos, interessei-me sobre como as divisões se ligam às historias de amor. Há algumas gerações, estas personagens teriam tido um casamento arranjado – e no mesmo lugar. Neste mundo o processo dura mais tempo, e talvez até possam acabar por não se encontrar”. Uma mudança temporal e geográfica que colocou, cada um deles, a lidar com a sua própria solidão e a questionar-se sobre o significado e as expectativas do amor. “É uma grande pressão a procura do amor verdadeiro”.
Kiran Desai fala depois dos seus avós – “o centro da minha vida literária, mesmo sem os conhecer” -, e de como foi o regresso a casa destes que desbloqueou a sua vida e a própria escrita, abraçando “o tema da solidão e a forma como surge e se desenvolve dentro de uma família”. Depois de confessar uma certa ligação a Garcia Márquez, menciona brevemente “Dias de Abandono”, de Elena Ferrante, num contraponto à sua própria experiência familiar: “Gostei do livro mas não percebi onde estavam as tias, os pais, porque estava esta mulher sozinha, sem um centro. Na Índia, as vozes da família estão sempre presentes, mesmo numa família disfuncional – e até mesmo na ausência física. Os indianos não podem ser cool ao estilo do jazz, porque estão sempre a pensar nas suas mães, nas suas tias, em toda a sua família. O centro do meu trabalho é negociar um mundo sem centro”.
E de que trata este romance que, na edição portuguesa, ultrapassa as 700 páginas? “Este livro é sobre um grupo ocidentalizado de indianos, que cresceram ao ponto de esquecer o seu próprio país. Pessoas que nunca apanharam o autocarro ou comeram numa rua do seu país, que comem comida indiana de garfo e faca – o meu avô fazia isso”. Momento em que recorda a sua própria chegada aos Estados Unidos. “Fui para uma escola conventual irlandesa, onde aprendi a dançar”. Pelo caminho, descobriu também a solidão. “Uso a expressão solidão porque é um termo que pode ser usado intelectualmente e emocionalmente. Tal como a água se molda, muda e transforma, descobri a privacidade e a dignidade do meu próprio corpo, a sua individualidade”.
A chegada a um novo continente provocou nela o medo de perder o foco da sua escrita. “Pensei que perderia o meu tema ao deixar a Índia. Ate perceber que este afastamento seria o lugar perfeito para a escrita, um lugar onde poderia desenvolver diferentes versões de mim própria, habitado pela solidão e o sentimento de não pertença. Esta ideia mística de não pertença era, também ela, ao mesmo tempo um lugar ético e político”.
Falou-se ainda da herança que lhe foi transmitida pela mãe – Anita Desai -, também ela (grande) escritora, que chegou a estar em Sintra para apresentar um livro seu, em tempos onde o mercado editorial era bem diferente. “A porta abriu-se muito devagar, até que os próprios editores vieram visitar-nos a Índia. Ficavam connosco e acabavam quase sempre doentes, pelo que lhes dávamos tostas com atum para acalmar o estômago”.

Desai, que cresceu a ler Winnie the Pooh em criança, diz nunca ter visto um urso de peluche até sair do país, e que o lugar de onde veio lhe foi também mostrado pela literatura. “Foram escritores como Salman Rushdie, que souberam retratar a minha paisagem, que permitiram também uma descoberta de mim própria”.
Para a escritoa, “A Herança do Vazio” foi “ uma mudança de paradigma, de escrever do ponto de vista de uma indiana”. O Booker, que teve um impacto “assustador”, deu-lhe ao mesmo tempo “a coragem necessária de pensar que, afinal, era uma escritora”. Algo que lhe permitiu sair para um país diferente e imaginar um livro centrado “numa esfera mais pessoal”, focado em temas como o amor, a perda e o luto. “Temas sobre os quais é bem mais difícil escrever do que sobre assuntos políticos”, e que a faz pensar no lado assustador da escrita: “Penso em como mudamos a realidade para escrever algo. Escrevemos para ver o impacto que as palavras têm. Os autores são perigosos”.
O processo de escrever sobre a solidão foi levado à séria, um pouco como Thoreau quando, em 1845, decidido a afastar-se temporariamente do materialismo e do peso da sociedade industrial do século XIX, foi viver para perto do lago Walden, num movimento rumo à auto-suficiência que o levou a construir a própria cabana. “Quando decidi escrever sobre a solidão tornei-me mesmo uma pessoa solitária. Foi um trabalho aprofundado, difícil de muitas maneiras, mas onde não dei pelo tempo e pela vida a passar. Também li muito Bolaño, o que de certo modo foi algo destrutivo. A certo momento senti que estava a criar um oceano de histórias”.
Apesar da herança literária, nem sempre foi a literatura a estar no horizonte laboral. “Comecei por estudar ciência, mas acabei a escrever um conto sobre canibalismo e cricket. Foi o falhanço na ciência que me colocou no caminho da escrita. Quando amamos algo, queremos ser parte desse mundo. Foi o que me aconteceu quando lia livros na biblioteca. Sentia-me em casa, como um golfinho a nadar no oceano”.
Depois de “A Solidão de Sonia e Sunny”, Kiran Desai parece não ter ainda fechado a porta a estas duas décadas de obsessão. “Muitas vezes digo que vou pegar nas páginas que descartei e que algo vai surgir disso. Foram vários milhares de paginas deitadas fora”, diz-nos. Seja o que vier a seguir, que não tenhamos de esperar outros vinte anos.
Fotos cedidas pelo FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos











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