Foi uma das exposições patentes no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que nos ofereceu um pequeno vislumbre do incrível, acutilante e abençoadamente desalinhado trabalho de Cristina Sampaio, cartoonista portuguesa que há duas décadas e meia tem conseguido mostrar-nos o mundo através de desenhos que são narrativas silenciosas, pequenos ensaios gráficos que são um convite ao pensamento interior e, por que não, ao debate público.

“Assim Vai o Mundo, Cristina!”, nome atribuído a esta exposição, será também o título do livro que a Tinta da China vai publicar a 19 de Novembro, uma retrospectiva de duas décadas e meia com curadoria da própria autora, dedicado a um cartoon feito com muito humor e ainda mais política. Um bom motivo para juntar, à mesma mesa, Cristina Sampaio, Bárbara Bulhosa – editora e fundadora da Tinta -, Sérgio Rui Gomes – editor do P2, caderno do jornal Público – e Jorge Silva – um dos mais conceituados e premiados designers de comunicação e directores de arte portugueses -, que assina o prefácio desta edição, que seguirá o formato e o design do volume anteriormente publicado dedicado a João Fazenda.
Sérgio Gomes considera que Cristina Sampaio “passou uma fase mais escondida”, e que o Desalinho, rubrica de comentário político e opinião em formato de cartoon, publicada semanalmente ao domingo no P2, é “um óptimo nome para a personalidade e o desalinho da Cristina. É difícil fazer, com tão poucos traços, aquilo que a Cristina faz. Dizer tanta coisa recorrendo ao mínimo”.
Após uma divertida troca de mimos sobre quem decide o tema semanal de cada desenho, que envolve mensagens de ida e volta via Whatsapp, Cristina Sampaio destacou a liberdade criativa que o jornal lhe confere: “Tenho liberdade absoluta naquele espaço, e muitas vezes o Sérgio nem sabe sobre o que é o desenho. Não há o mínimo de interferência com aquilo que eu faço. Nas mensagens com o Sérgio, quando quer saber qual será o tema ou se já existe desenho, normalmente respondo-lhe com um emoji de um lapinhos”.

“Conheci a Cristina na década de (19)80 onde era, até à entrada do jornal Público, uma ilustradora de livros para crianças”, começa por dizer Jorge Silva. “Em Portugal há portas giratórias entre varias áreas e artes gráficas, e o universo do cartoon e da caricatura parece estar reduzido a um número reduzido de eleitos. É uma raridade o sucesso que a Cristina teve, tanto na literatura para crianças, no teatro como na música”. “Eu não canto”, brinca Cristina, sobre esta alusão de Jorge Silva ao clássico álbum infantil de histórias e músicas “Bom Dia, Benjamim!”, em que Cristina Sampaio foi a autora de toda a ilustração e da imagem visual da personagem do “boneco” Benjamim – que dá nome ao disco – e, também, como criadora da cenografia da adaptação musical infantil para o teatro.
Os elogios de Jorge Silva não se ficam pelo multiverso habitado por esta super-cartoonista. “Cristina Sampaio é a única cartoonista de comentário político que existe em Portugal desde sempre, desde o tempo em que vivíamos nas cavernas. Ela é única, o que a torna um bicho raro e curioso. O mérito dela é o mérito do seu trabalho e não do seu género”.
Os livros para criança estão há muito para trás, mas saudade é coisa que ainda não bateu em Cristina Sampaio. “Nenhumas saudades. Tenho o cartoon nos meus genes. Comecei pela Banda Desenhada, mas rapidamente cheguei ao cartoon. Por acidente de percurso e de oferta fui parar à ilustração infantil mas, paralelamente, fazia cartoon para jornais como o da Fenprof ou jornal Combate. Foi algo paralelo ao que realmente gostava de fazer, que era humor. Era uma espécie de bar aberto, onde me podiam pedir varias coisas que acompanhavam sempre um texto”, recorda Cristina.
Cristina Sampaio parte depois numa viagem laboral, que envolveu entre outras geografias o trabalho no Público, a passagem pelo Expresso e o regresso ao Público, jornal onde tem deixado uma marca muito própria – ou uma “infografia ilustrada” com assinatura, como refere Jorge Silva, recuperando a celeuma levantada quando Cristina Sampaio, ao ilustrar um texto de opinião do cirurgião Gentil Martins contra a co-adopção por casais do mesmo sexo, decidiu colocar lado a lado três rapazes que só eram diferentes nas cores das roupas – até a falta de um dente era comum ao trio -, distinguindo-se pela legenda que Cristina Sampaio fez acompanhar cada um deles, tendo a indignação do autor do texto sido dirigida a esta específica: “Co-adoptado por casal homossexual”.

“Falta aqui este boneco”, considera Jorge Silva, recebendo da cartoonista o porquê de este desenho específico não estar incluído nesta antologia: “Tu veneras o desenho, eu nem por isso”. Sobre o cruzamento ou fronteira entre duas áreas, que muitas vezes querem andar de mãos dadas, Jorge Silva fez um desenho ilustrativo: “O que separa o cartoon da ilustração é o facto de o primeiro ser autónomo é de não poder ser censurável. A ilustração é um olhar, mas que vai de encontro ao que o autor quer”. “Foi um desenho no Expresso para a página de opinião”, contextualiza Cristina, sobre um cartoon que ficou para a histórica e que é visto por Jorge Silva como “uma medalha” com que Cristina Sampaio se deveria passear com orgulho.
Sérgio Gomes recorda o momento quando, a dada altura, Cristina Sampaio quis colocar um título a acompanhar cada um dos seus cartoons no espaço Desalinho. “Eu não era grande fã disso. Vejo os desenhos da Cristina como um espaço de opinião autónoma. Acho que são auto-suficientes sem precisarem de muletas. Para mim tratam-se de uma pequena gordura”, comenta, rindo-se partilhando quando a cartoonista, com a sua irreverência, lhe enviou um cartoon com a legenda já incluída, levando com muito estilo e carácter a sua avante.
A resposta de Cristina Sampaio chega de pronto, prometendo um desenvolvimento maior para a saída do livro. “Não digo que todos precisam de uma legenda, mas para alguns julgo que isso é necessário – e até me divirto com os títulos. Falo sobre isso no livro que vai sair. São já 25 anos de desenhos e, ao escolher alguns para esta colectânea, já não me lembrava do contexto de alguns. As palavras também são necessárias por vezes. Por isso, em alguns dos desenhos foram acrescentadas duas linhas de enquadramento do acontecimento”.

Um livro que, segundo o prefaciador, pode ser considerado “um documento histórico”, aproveitando para deixar o seu statement: “Os tempos estão difíceis para o cartoon. E os da Cristina, apesar da aparente amabilidade gráfica, são venenosos. Há uma violência e corrosão nas suas ideias em contraponto à simplicidade gráfica. Não gosto da conversa sobre resiliência, isso é discurso de quem já perdeu. Não e fácil para um cartoonista encarar diariamente o seu trabalho, centrado em coisas que o esmagam sistematicamente, sejam guerras, genocídios, migrações – ou também a habitação e o custo de vida -, sentindo ao mesmo tempo que se trata de um acto de resistência. Não acho que o cartoon não tenha o poder de mudar as coisas, mas há uma angústia em algo que pode parecer inútil. É um serviço público mas também um trabalho egoísta, em que se investe e para o qual se tem queda. Um acto de resistência, lucidez e resistência”.
Resistência que, no caso de Cristina Sampaio, se faz segundo Jorge Silva de “uma economia assinalável, uma situação sem paralelo em Portugal. Um trabalho sem mestre e sem discípulos. Não há nada que se pareça com aquilo que ela faz, esta economia gráfica feita de linhas e de curvas quase perfeitas”, com figuras que só têm quatro dedos, algo que Cristina Sampaio sempre se recusou alterar mesmo quando esteve em jogo um trabalho para manuais escolares. Façamos uma vénia a esta desalinhada e, no dia 19 de Novembro, juntemos à nossa estante pessoal um exemplar de “Assim vai o mundo, Cristina!”.
Fotos: Luísa Velez/ Deus Me Livro











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