Há, entre a sabedoria popular de cozinha, muitos ditos e provérbios que ilustram a necessidade de ter mão para o ofício, sejam eles “Uma boa faca não torna bom um mau cozinheiro” ou, alterando ligeiramente a formulação original, “Ter a faca e o queijo na mão (e não saber cortar)”. No FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, transpondo as artes da cozinha para o terreno da literatura, tivemos alguns cozinheiros que conseguiram estragar ou caldo ou, não dando a devida atenção ao tempo de cozedura, transformaram a melhor carne numa sola de sapato. Um sacrilégio que esteve longe de acontecer no showcooking que colocou, lado a lado, os escritores Michael Cunningham e Yann Martel, tendo o chef Luís Caetano mostrado dedo para lidar com os melhores ingredientes comprados no mercado local, mostrando-nos a importância da mediação na literatura – aconteça ela na tradução de um livro como na moderação de uma conversa.
O tema desta mesa era (a) Memória, um sistema complexo que, de formas distintas, atravessa os mais recentes livros de ambos os escritores, fazendo de formas bem distintas uma ligação íntima entre a memória, a literatura e a vida – seja ela individual ou colectiva: “Son of Nobody” (ainda sem edição portuguesa), de Martell, constrói uma ponte entre a guerra de Troia e a vida moderna, explorando as recordações, a perda e o modo como as histórias são parte do nosso entendimento sobre o mundo; quanto a “Unsayable: A Life in Writing” (também sem edição nacional), de Cunningham, é uma memória íntima de uma vida passada, em boa parte, a tentar escrever sobre aquilo sobre o qual é uma tarefa hercúlea escrever – o indescritível.

A primeira memória foi o ponto de partida para esta jornada épica, atravessada pelo que Christopher Nolan fez à Odisseia Homeriana – já lá iremos. Michael Cunningham recorda-se de, por volta dos 3 anos, ter tentado sem grande sucesso chegar a um tupperware, palavra não conhecida que lhe causou o embaraço sentido pela incapacidade de designar algo, que se viria a tornar uma obsessão na sua vida. Sobre o livro, o projecto final acabou por não corresponder a um clássico livro de memórias: “Ensinei durante muitos anos e queria escrever um livro sobre isso. Percebi depois que, se escrevesse sobre o que a literatura significava para mim, acabaria por chegar a este livro, que tecnicamente é uma memoria mas não apenas isso. Trata-se de uma história de amor de um ser humano com os livros e a literatura”. Um exercício que esteve longe do aprofundar do auto-conhecimento: “Tentei conhecer-me a vida inteira e já desisti. Escrever sobre as minhas memórias foi escrever sobre os outros. Este livro permitiu-me conhecer melhor as pessoas vivas que ainda estão a minha volta. Escrever sobre elas e sobre o que elas significaram para mim foi muito complicado”.
Já Yann Martel tem uma primeira memória mais assustadora: a de estar num parque de estacionamento e de ver uma aranha, o que ainda assim não lhe causou um medo paralisante – a não ser que seja uma das grandes. A tentação da escrita das suas memórias é um chamamento que ainda nºao sentiu: “Não tenho interesse em mim próprio. Não é que tenha medo de escrever sobre mim, mas não acho que tal seja muito interessante. Procuro antes perceber melhor a vida para me poder despedir com mais facilidade. Gosto de olhar para fora, de ser a mosca na parede”.
Luís Caetano fala de “Son of Nobody” como um épico, momento em que a conversa viaja pelo díptico de Homero, do qual Martel não tem dúvidas sobre o seu preferido. “Li Homero muito tarde. O que me surpreendeu na Ilíada foi falar não da grandeza mas da miséria de se ser grego. Um livro sobre o falhanço na gestão da raiva, muito mais moderno do que esperava. Um livro bastante actual, no qual a raiva parece estar em todo o lado. Prefiro a Ilíada à Odisseia como unidade de viagem e de tempo. Tem uma intensidade em que tudo se junta, o que me estimulou e levou a escrever este livro”. Luís Caetano aproveita a oferta perguntando a Martel se “Son of Nobody” será o seu livro mais marxista. A resposta é bastante clara, numa sinergia sempre desigual entre dois tempos longínquos. “Sim, creio que nessa altura os soldados gregos eram governados pelas elites, hoje somos governados por plutocratas que nos dominam a todos”.

Yann Martel considera, porém, que a literatura não deverá ter o propósito político como (único) desígnio. “Não devemos transformar a literatura numa arma. É algo demasiado trabalhoso para ter apenas um propósito político. Há elementos políticos, mas se for apenas isso corre o risco de ser efémero”.
“Não acho que os romances tenham de ser políticos, podem ou não ter interesse nisso”, começa por dizer Michael Cunnigham. “A razão de ser da ficção é mostrar-nos uma forma de ser além da nossa, um modo profundo de nos levar a conhecer a alma e o coração de algumas pessoas. Conheço algumas personagens literárias melhor do que conheço a minha mãe. A literatura é um exercício de empatia, que nos ajuda a conhecermo-nos melhor. As pessoas não são dispensáveis, são também, e de alguma forma, nós próprios. E isto é político”.
Aproveita-se a boleia dada por Christopher Nolan, motorista da adaptação ao grande ecrã da Odisseia, para um mergulho nos clássicos. Martel começa por referir a classicista – e Nobel – Anne Carson, referindo o “apelo interminável sobre os mitos gregos. Há limites sobre Napoleão, mas com os mitos podemos fazer o que quisermos, criar novos propósitos. Recontar, por exemplo, os mitos sob uma perspectiva feminista. Não há factos e fontes seguras: são mitos, material de uma grande plasticidade e muito apelativo. O o mesmo se passa com a ficção. A minha introdução ao cristianismo foi “O Velho e o Mar”, que me ensinou a essência cristã. Podemos pegar nas histórias e torná-las nossas”. Mais à frente, brinca sobre esta adaptação ser sobre “uma Perturbação de Stresse Pós-Traumático, um olhar perfeitamente aceitável”.

Cunningham considera que “a literatura clássica sempre esteve na moda e fora dela”, não acreditando que um blockbuster leve a uma explosão grande da compra dos clássicos – com a Odisseia, pelo menos, isso parece ter acontecido. Seja como for, esta grande produção da Odisseia “trouxe um discurso com dois mil anos para o tempo moderno, restaurando alguns temas controversos” – e necessários, já se percebeu.
Um dos temas abordados nesta conversa foi a tradução, tendo ambos os escritores colocado esta gente quase sempre mal remunerada no mais alto pedestal. Cunningham, que recupera um episódio vivido com um tradutor espanhol, que envolveu uma tiara e conversas sobre colonialismo e escravatura – o que levou à não inclusão de uma piada na edição espanhola -, diz-nos que “não há nada como a experiência da tradução para perceber a importância e a relevância dos tradutores”.
“São os meus pais que traduzem os meus livros para o francês. Sou também fluente em espanhol. Já as outras 49 línguas são um mistério”, adianta Martel, que recorda um episódio aquando da tradução para a Indonésia – que implicou a retirada de um adjectivo -, para apontar mais um aspecto fundamental que tem encontrado quando os livros se encontram em processo de tradução: “Muitas vezes são os tradutores que encontram os erros da narrativa. Também acho que são fundamentais e que não recebem o devido reconhecimento”.
Falou-se ainda da forte ligação de Martel a Portugal – foi no nosso país que fez a sua primeira viagem com mochila às costas – que, curiosamente, tem um livro intitulado “As Altas Montanhas de Portugal”: “Tornei Portugal numa metáfora. Não há assim montanhas tão altas. Gosto tanto do país que o transformei numa metáfora”.
E terão ambos os escritores ficado presos, sobretudo pelo reconhecimento alheio, a livros que escreveram há mais de duas décadas? – Cunningham, com “As Horas”; Martel, com “A Vida de Pi”. “Percebo muitas vezes que, quando alguém me diz que gosta da minha obra, se está a referir a este livro. A maior parte da literatura é a tentativa de gravar o tempo e os sentimentos em carne, para não correrem o risco de desaparecem. «As Horas» foram isto”, começa, acrescentando-lhe um lado mais filosófico: “Em todos os escritores que conheço, ou em muitos deles, permanece um sentimento de falha, de terem deixado algo escapar, algo de inexprimível”, diz, propondo o exercício de fecharmos os olhos, pensarmos em alguém de quem gostamos e tentarmos escrever sobre essa pessoa englobando tudo o que sabemos dela. Para Cunningham, o resultado será apenas “um fantasma vivo de alguém que conhecemos”.

“É melhor um êxito que nenhum êxito”, diverte-nos Martel, falando dos seus livros como uma espécie de filhos. “Amo-os a todos, cada um deles foi a tentativa de descobrir algo. O meu primeiro livro vendeu 800 exemplares no Canadá, mas gosto dele tanto como gosto de “A Vida de Pi”. Continuo muito feliz com este último, tenho recebido cartas ao longo do tempo. O livro é uma co-criação, os leitores acrescentam-lhe detalhes e um pouco a sua própria vida”. Ou, como contou também, novas interpretações, como um leitor que ligou o título ao Pi numérico e lhe permitiu, depois disso, “brilhar em futuras apresentações”.
Luís Caetano decide sentar Donald Trump à mesa, perguntando se a sua nova eleição terá sido “falta de memoria ou de literatura”. “Não posso negar que sou Americano, e que estou abismado como qualquer um com o estado do país. Espero que o mundo dure o suficiente para que tudo isto se torne numa memória, nos artefactos do futuro”, partilha Cunningham. Já Martell propõe um exercício mais analítico, que possa levar a uma transformação futura mais profunda da sociedade: “Não gosto de Trump, mas a verdade é que temos de tentar perceber porque votam as pessoas nele. Há uma disfuncionalidade e um problema sério na democracia actual. Existem razões para a zanga mas ele não é a solução. Estou muito curioso em saber quem será o candidato democrata”, finaliza, voltando a apontar o dedo aos plutocratas e aos milionários que tomam conta disto tudo. Uma conversa tão boa que merecia ser gravada em CD – ou, pelo menos, num podcast para se ouvir enquanto se matam as horas, tentando recordar os primeiros números a seguir ao 3,1415…
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Fotos: Luísa Velez











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