No ano de 1959, em plena ditadura do Estado Novo, Jorge de Sena, confrontado com as consequências da sua oposição ao regime, exila-se no Brasil. A distância afasta-o de vários amigos em Portugal, mas os laços profundos que o unem a Sophia de Mello Breyner Andresen são preservados por via epistolar, numa belíssima correspondência mantida até à morte do escritor, em 1978, e reunida em “Sophia-Sena: as Cartas” (Guerra & Paz, 2025 – 4ª edição).
A compilação é, sobretudo, obra de Mécia de Sena, esposa de Jorge, que teve a ideia primordial desta publicação e realizou um trabalho preciso de preservação, transcrição e organização de documentos, além de ter prestado esclarecimentos acerca dos textos e apoio na redacção das anotações. Também Maria Andresen Sousa Tavares, filha de Sophia, confiou material aos editores – incluindo cartas e bilhetes postais que enriqueceram as edições posteriores à primeira – e abraçou este projecto revendo as cartas da mãe, elaborando mais notas e identificando pessoas e situações.
No seu todo, esta edição possui grande valor académico: sem deixar de preservar as introduções às edições anteriores e suas notas contextualizadoras, adiciona prefácios novos (de Isabel de Sena e de Maria Andresen Sousa Tavares) e apresenta um índice cronológico das cartas, um índice onomástico das personalidades mencionadas, listas das obras publicadas por cada autor e diversos anexos (incluindo dedicatórias de Jorge de Sena a Sophia de Mello Breyner e o texto da homenagem que ela lhe dedicou após a sua morte). Todavia, o interesse do livro transcende o âmbito académico, oferecendo um retrato do Portugal daquele tempo e divulgando a dimensão humana de dois grandes vultos das letras nacionais.
Em tempo de ditadura, a polícia política é uma preocupação constante: Sophia não só se queixa que a PIDE lhe revistou a casa e confiscou cartas recebidas, como conta que teve de desistir de um projecto de revista por causa da censura; até num congresso de escritores em França tem a impressão de ser seguida e medo de não poder voltar para Portugal. Jorge escapou a esse ambiente opressivo, tendo encontrado no Brasil condições de trabalho adequadas à produção da sua obra. Aí, apesar de algumas desilusões, é-lhe possibilitada uma carreira universitária, graças à qual alcança relativa segurança financeira, mas a instauração da ditadura militar brasileira leva-o para os EUA, onde encontra um reconhecimento que lhe faltava – triunfo que não o impede de criticar os americanos e de especular acerca de uma futura ditadura do “big-business”.
Sophia enfrenta adicionalmente as dificuldades habituais do seu sexo, inerentes ao esforço de conciliação da poesia com o trabalho de cuidar de cinco filhos, mas não é menos truculenta nas críticas à intelectualidade lusa, à qual ambos apontam defeitos de mesquinharia, incompetência, inveja, rancor e oportunismo, entre outros – considerações que devemos receber tendo em mente a subjectividade com que foram escritas e notando que os dois autores não eram modestos na avaliação de si próprios.
Confrontados com um mundo bem diferente daquele que desejariam e cépticos quanto ao futuro de Portugal, mesmo após a revolução de 1974, Jorge e Sophia partilham desabafos desiludidos, pedem notícias, apoiam-se mutuamente, debatem textos e expressam a admiração profunda que nutrem um pelo outro. De entre o pessimismo, brilha o deslumbramento de certas viagens e, acima de tudo, a amizade, mantida pela força da palavra que supera a distância.











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