“Confesso que tinha sérias dúvidas de que, passado um ano, teria nas mãos o desfecho de «O Desfufador»”, partilha Bárbara Bulhosa, editora de Valério Romão na Tinta-da-China – e sua fundadora -, no arranque da apresentação no FOLIO de “O Desfufador: A Cura”, volume que encerra um díptico que nasceu da muito improvável ideia de uma epidemia de lésbicas.
Um rasgo criativo de Valério quando, numa das suas leituras, deu de caras – e isto antes da COVID – com a epidemia de dança de 1518, também conhecida como a praga da dança ou coreomania, um surto real e muito bizarro de histeria colectiva, que aconteceu em Estrasburgo, na Alsácia (actual França), entre Julho e Setembro de 1518, que acabou por desaparecer de forma repentina mas não sem antes ter causado exaustão extrema, ferimentos nos pés, desidratação, ataques cardíacos ou derrames.

“As primeiras trocas de impressões sobre o livro não foram profícuas. Lembro-me de ouvir o Valério e lhe dizer que era capaz de ser uma ideia de merda”. Algo que mudou com a leitura das primeiras páginas do manuscrito, que foram ao encontro das expectativas que levaram a esta contratação de peso para a editora: “O Valério é um autor desalinhado em relação ao que que publica actualmente. Um autor livre, com um domínio da Língua como não conheço ninguém da sua geração”.
Segundo Valério, naquele primeiro explanar de uma ideia que se viria a tornar um livro, Bárbara não terá gostado da imagem de um anão e de um golfinho poderem viver, ainda que platonicamente, uma relação romântica: “A Bárbara tem um limite que é a Zoofilia. Tudo o resto vale”, brinca, numa apresentação que decorreu entre o espírito da conversa de café e um espectáculo de stand up – ou sit up, no caso -, de um autor que tem qualquer coisa de estrela rock atravessado pelo espírito punk, na esteira de nomes como Virginie Despentes ou Mariana Enriquez – só para citar gente viva.
Relembrou-se, já com alguma graça e desprendimento, a estranheza de Valério ter escolhido “O Desfufador” como título desta saga em dois actos, que chegou mesmo a envolver um telefonema de uma organização LGBT a indagar sobre o conteúdo do ainda não publicado romance. “Na altura pareceu-me uma ideia gira. “O Desfufador” tem mais piada que “O Despaneleirizador”. E é bem mais fácil de pronunciar”, atira o escritor, antes de partilhar os desafios que encontrou na procura desta cura: “Este livro foi escrito em condições desafiantes. 2026 não foi um ano bom para a escrita, foi um ano para banhos. Safou-me o ar condicionado. Ninguém acreditava neste livro. Foi uma maratona solitária, saiu-me do pêlo”.

Depois de o descrever como um díptico “que nos alivia muito em tempos disruptivos sem esquecer as temáticas importantes”, Bárbara Bulhosa destaca tratar-se de uma história inventada, um triunfo da imaginação longe da tendência moderna para a auto-ficção ou a meta-literatura, e que está nos antípodas de “Paternidades Falhadas”, a dura trilogia de romances de Valério Romão dedicada aos temas da família e das relações de parentesco – ou também de “Da Família”, livro que expande estes mesmos ambientes e temáticas familiares complexas no formato de narrativas breves. “Se calhar foi uma crise de idade, uma crise de diversão. Estava farto de escrever coisas sérias, foi uma trilogia muito pesada em termos de assuntos e de linguagem. Tinha vontade de pegar em assuntos saneados, como poder dizer palavrões em contextos caricaturais e reclamar, para o espaço da diversão, um lugar de seriedade onde se pudesse falar de habitação ou da cultura gentrificação. As duas coisas não são incompatíveis. Queria, também num gesto egoísta, escrever comédia e não repetir uma fórmula”.
Antes disso, depois de ser obrigado pela editora a ler as primeiras linhas deste novo livro, decide-nos “ler outro bocadinho que tem uma linguagem mais poética”, onde, qual Lucky Luke em disparo contínuo batendo a sua sombra aos pontos, se lançou numa torrente de impropérios capaz de escandalizar leitores menos dados ao vernáculo – uma espectadora sentada na primeira fila sai a meio, e provavelmente não para atender um telefonema. “O livro não é só isto. És capaz de não espantar leitores?”, brinca Bárbara, numa apresentação triunfal de um livro que, para fazer pendant com a primeira edição – e terceira – do primeiro volume, chega às livrarias em capa dura. Saiam de casa e vão a correr comprá-lo.
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Fotos cedidas gentilmente pelo FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.











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