Foi, no que diz respeito a exposições, a maior das surpresas oferecida nesta edição pelo FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. Falamos de “Retaliate First”, em exibição até 18 de Outubro no Museu Abílio de Mattos e Silva, que surge integrada no FÓLIO BD/Flexágono.
Uma retrospectiva dedicada à arte política e ao activismo do norte-americano Christopher Sperandio, um artista, cartoonista e professor associado de arte na Rice University (Houston), que assina sob o pseudónimo – ou alter ego artístico, se preferirem – de Pinko Joe. Uma conta de Instagram (@pinko_joe) que, em 2023, foi distinguida pelos editores da PRINT Magazine com um PRINT Award, na muy respeitável categoria de Cidadania e Design.

Desde Maio de 2020, Sperandio tem produzido, a uma cadência diária, desenhos de uma tira única, onde funde, deliberadamente e com nervo e verve, a estética da banda desenhada vintage e muito retro com o design dos tablóides clássicos, resultando numa sátira política contemporânea com alvos bem definidos – Donald Trump é, talvez, o maior deles. Um trabalho todo ele político, que se assume como anti-fascista, anti-racista, pró-democrático e crítico em relação ao sistema e ao modo de vida americanos, sobretudo quando inclui capitalismo excessivo, ganância corporativa e porte de armas, temas recorrentes na sua abordagem gráfica de um país à beira da loucura. A ironia e o sarcasmo são o seu escopo e martelo, esculpindo com mestria a nostalgia dos anos 50 e 60 para expor as fracturas sociais do presente.

A exposição em Óbidos serviu também, no primeiro fim-de-semana do FOLIO, para o lançamento mundial do livro “Retaliate First! Christopher Sperandio’s Political Art” (ed. Rotland Press) – podem comprá-lo aqui ou em Óbidos até 18 de Outubro -, o catálogo oficial da exposição que reúne os trabalhos de sátira e comentário político do artista, além de ensaios e textos críticos de Paul Krainak e Joshua Decter, bem como uma conversa com o curador português da exposição, Pedro Moura.
O processo de trabalho de Sperandio envolve, frequentemente a apropriação, remontagem e alteração de imagens de arquivos de banda desenhada antiga, aliando a ilustrações de porte clássico comentários políticos modernos. “Tenho pastas e pastas no meu computador”, disse o artista na apresentação do livro. Antes disso, num interesse genuíno, questionava cada jovem que via na sala se era artista, tratando de lhes perguntar se tinham alguma coisa para lhe mostrar, sempre disposto a oferecer umas dicas ou palavras de incentivo.

Muitas das suas obras físicas, várias delas visíveis nas paredes do museu, são produzidas através de impressão risográfica, uma técnica conhecida pelas suas cores vibrantes (frequentemente com tintas néon ou pastéis que não existem no espectro digital normal) e pequenas imperfeições de registo. “Puxo muito pelas cores, a impressora adora. Os outros tendem a ser mais cautelosos”, brincou informalmente antes do arranque da conversa.
No lançamento, Pedro Moura destacou o trabalho de Christopher Sperandio no campo da biografia em banda desenhada, onde “seguiu a vida de trabalhadores nocturnos, de enfermeiros, e criou histórias da comunidade laboral”. Ao longo da sua carreira, principalmente na sua famosa parceria com o artista britânico Simon Grennan (conhecidos como Grennan & Sperandio), focou-se na chamada arte relacional e socialmente engajada que, ao invés de apostar na criação de heróis de ficção, apostava no trabalho directo com comunidades, trabalhadores e indivíduos comuns, transformando as suas vidas e rotinas em livros de banda desenhada, publicados por grandes editoras como a Fantagraphics Books ou a DC Comics.

“A mensagem que tenho hoje é esta: sigam-me no instagram”, brincou Sperandio, relembrando que os desenhos expostos nas paredes estão longe de reflectir tudo o que tem atravessado o seu trabalho. “Segui a tradição de coleccionar imagens e de as desenhar depois em papel”, referindo as pastas infinitas que guarda no computador e em discos. Alguém do público fala do Tumblr, ferramenta moderna com um efeito que poderia assemelhar-se a simplificação, mas que Sprerandio recusa pelo facto de não permitir um fácil acesso cronológico ou temático. As questões técnicas não passaram ao lado, com Sperandio a elogiar a sua stencil printer, que lhe permite imprimir duas cores ao mesmo tempo a um ritmo desenfreado de 80 páginas por minuto. “Sou como um dragão, durmo sobre pilhas de desenhos”.

O elefante na sala, vulgo Donald Trump, não passou ao lado, tendo Sperandio mencionando os vários sonhos – ou desenhos – em que conseguiu eliminá-lo da face do planeta, sem precisar de recorrer a grandes doses de violência. “Tentei matar Donald Trump mas não o consegui. O meu sonho foi que tinha tido um ataque cardiacao. Posso não poder voltar ao país dependentemente do do que escreverem sobre isto”, brinca, enquanto mais seriamente responde a alguém que lhe pergunta se a arte é capaz de abrir mentes, tratando de apontar os vilões e o vírus que não está activo apenas nos Estados Unidos. “James Gillray (famoso caricaturista e gravador inglês (1756–1815), considerado o pai da caricatura política moderna) é a razão de pensarmos que Napoleão era pequeno. Trump odeia a crítica, faz ameaças e expulsa sempre que pode. Já Rupert Murdoch (acionista majoritário e CEO da News Corporation, um dos maiores conglomerados dos media mudiais que tem o controle de canais tradicionais como Fox News, The Times (Londres) e The Wall Street Journal) – é, se quiserem, a cobra do jardim. Portugal está a lidar com a exrema-direita, o Japão também, a ameaça está um pouco em todo o lado”.

Numa das paredes, o destaque vai todo para desenhos originais a tinta de aparo sobre papel, onde descobrimos personagens femininas – ou variações de uma mesma, com embalo para uma série em nome próprio que Sperandio diz nunca ter sido uma ambição ou sequer uma ideia. Ainda assim, é nas mãos destas personagens femininas que Sperandio parece assentar a sua mais ambiciosa revolução. “As mulheres jovens são as mais afectadas pela política. Por isso as coloquei nas minhas tiras”.
Retaliação é a nova – e urgente – palavra de ordem e, seguir e partilhar o insta de Pinko Joe, é o pequeno-grande acto de retaliação que poderão cometer hoje.
Fotos: Luísa Velez (excepto a de destaque, gentilmente cedida pelo FOLIO)











Sem Comentários