A proposta era, no mínimo, empolgante, convidando duas escritoras nascidas no mesmo ano – 1984 – para planarem sobre “narrativas de desejo e melancolia”. Foi este o título da conversa conduzida pelo jornalista Luís Ricardo Duarte, que juntou na Livraria do Mercado duas autoras que, este ano, reeditaram livros seus em edições revistas e aumentadas, como bem cantava Rui Reininho em “Impressões Digitais”. Um tema que passava nas ondas hertzianas quando Ana Cláudia Santos e Andreia C. Faria se preparavam, no auge da despreocupação da infância, para a entrada na escola primária.

Depois de um percurso fulgurante pela poesia, feito dos livros “Flúor” (Textura, 2013), “Um pouco acima do lugar onde melhor se escuta o coração” (Artefacto, 2015), “Tão bela como qualquer rapaz” (Língua Morta, 2017, Prémio SPA Poesia) – 3 títulos reunidos em “Alegria para o fim do mundo” (Porto Editora, 2019 – Prémio Literário Fundação Inês de Castro), volume a que se acrescentou o conjunto inédito «As ervas altas e os pulsos» – e “Canina” (Tinta-da-china, 2022 – Prémio PEN Clube e Prémio Correntes D’Escritas), chega agora a vez de olharmos espantados para a sua prosa. Um estilo que não é de agora, mas que ganha uma outra dimensão – e alcance – com o lançamento de “Aposto Tudo Numa Elegância Ferida” (Companhia das Letras, 2026), livro que reúne os dois livros de prosa anteriormente publicados pela autora – “Clavicórdio” (2020) e “Canto do Aumento” (2024) – acompanhados de um texto inédito.
Sobre a dualidade poeta/prosadora, a escritora portuense não ergue muros: “Não vejo uma descontinuidade entre ambas, não acho que haja uma diferença entre a prosadora e a poeta. Preciso da prosa para a narrativa ou o ensaio” – algo que Anne Carson consegue, segundo Andreia, fazer unicamente através da poesia. Sobre esta nova edição, falou do “momento em que descobres coisas que não sabias que sabias”, de “temas e atmosferas recorrentes e figuras em diálogo que por vezes se contradizem”, abrindo ao leitor a possibilidade de recombinar os excertos, descortinando se terá surgido uma nova ferida, aberta com o tempo e a distância da escrita.

De Ana Cláudia Santos, escritora e também tradutora – de nomes como Fleur Jaeggy, Alba de Céspedes ou Natalia Ginzburg -, chegou às livrarias “A Morsa – Contos de Inocência e de Violência” (Companhia das Letras, 2026), que juntou 4 novos contos aos 12 originais. “Foram contos escritos após «Lavores de Ana», pensados para integrarem um novo livro, mas acabou por fazer sentido juntá-los a esta nova edição”. Contos que, para quem visitar pela primeira vez esta Morsa, não se apresentam datados, o que permitirá ao leitor um exercício de adivinhação, procurando descortinar as fissuras do tempo. Ana Cláudia Santos que, logo de entrada, mostrou as cartas: “Não sou versejadora. Escrevia em criança mas cedo abandonei a poesia. Tive também a tentação da não ficção, que depressa deu lugar à prosa. A minha cena é mesmo a prosa a escrita narrativa”.
O território dos sonhos foi também um local de paragem. Andreia C. Faria falou nas “grandes dádivas” trazidas pelos sonhos, da “qualidade cinematográfica” que emprestam e da “expansão da imaginação”, permitida pela questão fisiológica do sono e o embalo noctívago. Já Ana Cláudia Santos, que na arte do sonho se definiu como uma “abençoada amaldiçoada”, disse ter um caderno ao lado da cama para anotações, lembrando que “escrever é também uma forma de não distinguir entre o real e o imaginário”.

Falou-se de exposição, da intimidade que se imagina com o escritor olhando apenas a foto da badana, de limites e fronteiras, da ficção como mentira, dos e-mails como as novas cartas, da aversão de ambas às mensagens de voz no WhatsApp ou do desejo e melancolia associados a um triângulo amoroso, que surge completado pela importância do que está em falta.
Sobre novos projectos, Ana Cláudia Santos desvendou estar “a trabalhar em algo em que nunca tinha imaginado. Um tema que cria uma distância em relação à minha vida. Vou sair de mim e deste tempo”. Já Andreia C. Faria, apesar de não ter mostrado o caminho, estendeu sobre nós uma reconfortante obscuridade: “Há um texto sombra de nos próprios, e eu sou também uma escritora involuntária desse texto sombra, que resulta da contraposição do que escrevo conscientemente e de um outro, escrito por uma série de entidades externas. É uma ideia assustadora e poética ao mesmo tempo”. Seja em poesia ou em prosa, vale a pena ficarmos atentos a estas duas autoras.
Fotos: Luísa Velez











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