Identidade, Ficção e Ciúme. Foram estes os temas que nos fizeram sentar, por três vezes, à mesa da Tenda de Autores, naquele que foi o primeiro fim-de-semana do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. Deixamos os links para todas as conversas e, ao invés de uma reportagem, embarcamos numa viagem por entre (ex)citações.
Mesa 1: Identidade
Michela Marzano e Gabriela Cabezón Cámara
Moderação: Sara Figueiredo Costa
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“Para que haja um nós é preciso inventar um outro. Talvez aí possamos ser nós”.
Gabriela Cabezón Cámara
“O centro é o poder. Fala em nome de todos. Nos meus livros há sempre um centro, com personagens que estão em diferentes periferias e que são segregadas. Personagens que acabam por construir novas identidades e vidas. Reúnem-se, amam-se e também se odeiam – afinal, são pessoas.”
Gabriela Cabezón Cámara
“Se a selva amazónica morre acabamos. E para que destruí-la? Para tornar mais ricos os que já são milionários? Estamos a ser sacrificados por estes tipos”.
Gabriela Cabezón Cámara
“A literatura serve para extrapolar, para abrir caminhos e possibilidades. «As Meninas do Laranjal” fala da brutalidade da conquista da América, e de como isso continua a acontecer hoje em dia, e não apenas na América. No romance paramos essa brutalidade através da ternura. Mas como o fazemos na vida?”
Gabriela Cabezón Cámara
“Anne Carson vai até ao mundo antigo e traz o sagrado para a desencantada contemporaneidade. Adorei que tivesse ganho o Nobel.”
Gabriela Cabezón Cámara
“Obrigado aos jovens franceses e aos do Chile, que nos estão a dar grandes lições. Também lhes ensinámos algo, mas o mérito é deles.”
Gabriela Cabezón Cámara
“Os governos de direita detestam-nos. Estamos sempre a fazer política, mesmo quando não escrevemos como dissidentes. Há qualquer coisa na literatura que quebra a lógica da vida quotidiana, e isso e já uma ruptura política.”
Gabriela Cabezón Cámara

“A vulnerabilidade da condição humana é o fio vermelho que nos une. Somos sempre uma outra coisa face as expectativas sobre nós projectadas, A identidade é dada como uma prisão, construída pelo olhar dos outros. É como se a fragilidade fosse uma falha.”
Michela Marzano
“Fiz as contas ao meu passado, algo que não foi feito em Itália. Se isso tivesse sido feito não teríamos agora uma fascista no governo. Fazer as contas do passado e não ter vergonha é uma necessidade absoluta. Estamos a voltar ao tempo em que os únicos autores a serem lidos eram homens ingleses ou alemães, quando o pensamento das mulheres não podia ser expresso. O patriarcado mediterrâneo está a ser difundido pelo governo italiano”.
Michela Marzano
“Não podemos tomar os nossos direitos como adquiridos. Bati com a cabeça contra o muro quando fui deputada. So podemos alterar as coisas através da cultura e da educação, com espírito critico e ferramentas cognitivas. Temos de continuar mesmo que fracturadas, é o que eu digo sempre.” Michela Marzano
“A literatura tem um poder mais forte que o ensaio. Aquilo que não se pode argumentar pode-se mostrar, contar a história de um ponto de vista interno. Os temas da fragilidade e da perda só podem ser (re)encarnados por personagens do romance. A argumentação pode ser contra-atacada mas o romance permanece”.
Michela Marzano
Mesa 2
Ficção
Anne Serre e Ana Margarida de Carvalho
Moderação: Ana Sousa Dias
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“Não escrevo a partir de eventos da minha existência. Utilizo a imaginação, feita do que li, vi e imaginei. Uma imaginação que resulta de fragmentos, unidos por uma operação estranha. No meu caso começo todos os meus livros por uma frase que se impõe. Não se trata da conclusão de uma reflexão, antes algo que surge no final de um sonho ou ao acordar. Por vezes engano-me e, passadas 10 páginas, já não há livro mas um vazio. Nunca me aconteceu pensar: vou escrever sobre este assunto. Não é o meu método”.
Anne Serre
“Quando tinha 25 anos precisava do sublime, hoje nem por isso. Hoje interessam-me mais os rostos, os corpos. E a literatura não pode mostrar isso, talvez ou cinema ou a pintura. Todos os quadros e filmes que vi entraram no meu imaginário, funcionando e dançando em conjunto. Gosto que Fellini esteja instalado em cada um dos meus textos”.
Anne Serre
“A questão é: o que e o narrador de um livro? Os temas por vezes nem são interessantes, mas sim quem nos conta a historia. Nos grandes livros não sabemos quem o faz. Não é o escritor, é uma outra voz – na realidade é uma personagem criada pelo escritor: a voz para além do quotidiano.”
Anne Serre
(Sobre o livro “Chapéu de Leopardo)
“Não queria contar a história de uma pessoa que tinha perturbações psíquicas graves, antes escrever um hino, uma oração de quem lutou muito para sobreviver. Essa luta foi algo de notável. Quis criar um canto para a celebrar. E não o fiz a partir das minhas recordações, mas partindo de uma história da minha infância.”
Anne Serre
“As manifestações não vêm ate mim como escritora, tocam-me enquanto pessoa. Não sou uma escritora do realismo ou do naturalismo. Não trato daquilo que se passa na minha época. Não me interessa, o meu material é outra coisa. O mundo pode desmoronar e eu continuo a escrever a mesma historia. É assim que eu funciono.”
Anne Serre
“Neste momento não estou a escrever nada, mas faço tudo o resto. Leio muito e não escrevo todos os dias. Não funciono de todo assim. Encho uma mochila com coisas que leio, com sonhos que tenho, com a própria vida, e depois chega o momento em que há uma necessidade de a esvaziar. Neste preciso momento estou na fase do enchimento da mochila.”
Anne Serre

“Pelos vistos não somos tão diferentes no processo criativo. As minhas ideias surgem mais de uma ideia visual. O método e sempre intuitivo: gritar e esperar pelo que o eco devolve”.
Ana Margarida de Carvalho
“Tolero mais um mau escritor do que um mau músico ou cineasta”.
Ana Margarida de Carvalho
“Por vezes sou eu que conto, noutras não. Somos um pouco deuses a criar mundos que não existem. O peso do passado, do que vimos e somos, é o alimento da ficção – e a própria ficção.”
Ana Margarida de Carvalho
“O romance e algo embaraçoso de se escrever. Se pudesse escreveria sempre com um pseudónimo. Escrever é sempre algo de muito expositivo. A infância não sai de nós, é um território pisado e repisado. Não escrevo auto-ficcao, mas na escrita não consigo sair da minha infância.”
Ana Margarida de Carvalho
“Nunca escrevo sobre o que esta a acontecer. Nao percebo nada disto, em que ponto começou esta regressão desenfreada? Seria óptimo que a crueldade estivesse apenas na ficção.”
Ana Margarida de Carvalho
Mesa 4
Ciúme
Catherine Millet e Aixa de la Cruz
Moderação: Luís Ricardo Duarte
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“O ciúme é uma forma de nos conhecermos a nós próprios, de tentar ver a ferida que está subjacente.”
Aixa de la Cruz
“Penso que trabalho com personagens levadas ao extremo, esta é a função da minha escrita. Parte do pessoal nem sempre vivido, resultando numa extrapolação.”
Aixa de la Cruz
“Com o «Mudar de Ideias» tenho a sensação de não ser eu. É um produto histórico de um momento passado, do qual tenho a sensação de estar de fora. A auto-biografia é um mito. É perturbador tentar que o auto-biográfico nos encerre num livro. Quando enrtamos na ficção já não somos essa pessoa. Não creio que volte a escrever um livro assim. Foi ousado e valente, mas não voltarei a fazê-lo”.
Aixa de la Cruz
“Eu não queria fazer auto-ficção. Mas de cada vez que contamos a nossa história é impossível não expor terceiras pessoas. Neste livro (“Mudar de Ideias”) mudei os nomes, e apercebi-me de que a minha lembrança era a da ficção e não a da realidade. É uma memoria fascinante que se torna ficção.”
Aixa de la Cruz
“«Mudar de Ideias» é uma obra estranha na minha trajectória. Não costuma haver boa literatura quando há uma ideia política clara. Em Espanha algumas coisas mudaram, alguns códigos culturais, Entre 2017 e 2020 houve um movimento contra o patriarcado, e muitas de nos entrámos neste processo. Algumas coisas da minha vida não eram pessoais, eram sistémicas. O que obrigou a uma releitura de mim própria, a recontar a minha vida de outro ponto de vista político.”
Aixa de la Cruz

“Escrevo essencialmente escrita auto-biográfica. Se olhar a esta distância para Catherine M. parece-me uma personagem extrema, que nada tem a ver comigo. Mesmo com algo de ridículo.”
Catherine Millet
“Dali era um voyeur que alimentava a masturbação. Ao trabalhar essa pulsão percebi o meu mecanismo. Os meus ciúmes alimentaram-se da visualização de fotos nuas de outra mulher que o meu marido tirou. Imaginava cenários épicos que, ao mesmo tempo, eram um sofrimento mas também um grande prazer.”
Catherine Millet
“Este ciúme e anterior à escrita de «A Vida Sexual de Catherine M.». Queria espreitar as gavetas do meu marido. Se um tempo atrás me falassem disso, diria que era necessário respeitar a liberdade do outro. Vivia sob uma espécie de adição. Descobrir a vida sexual escondida dava-me a sensação de que eu própria estava destituída da vida sexual. A escrita de Catherine M. foi uma reapropriação da minha própria vida sexual.”
Catherine Millet
“Há um efeito de distanciamento terrível provocado pela escrita. Escrever uma cena que tenho na minha memória, faz com que dela desaparece quando a escrevo. Catherine M. tornou-se uma personagem exterior a mim, que me acompanha sempre. É um duplo. A minha criança, o meu filho. Uma uma criança encerrada num livro, sendo o meu papel acompanhá-la e tentar que seja o melhor compreendida possível.”
Catherine Millet
“Nunca escrevo no presente mas de um tempo a passado, deformado pelo tempo. Nesses livros (“A Vida Sexual de Catherine M.” e “Ciúme”) a psicanalista ajudou-me muito. A primeira lembrança esconde outras a que e necessário regressar. Escrevo para chegar à raiz da memoria, interrogando as testemunhas. O real fazêmo-lo em permanência. Mas será que estamos conscientes da realidade em que nos encontramos? A única realidade e a morte, essa é a parede contra a qual paramos. Tudo o resto é manipulado pelo nosso espírito.”
Catherine Millet
“A minha geração era a da liberdade sexual, tinha então 28 anos. O discurso irritava-me muito. A liberdade sexual não era o paraíso do amor. O meu projecto era o de contar, de forma factual e sem sentimentos, o que tinha representado essa liberdade pessoal. As críticas surgiram fora da ideia do projecto.”
Catherine Millet
Fotos cedidas gentilmente pelo FOLIO (excepto a imagem identificada)











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